Série Europa I: UE como veículo de Transferências do Sul para o Norte?

Europa

É defensável dizer que a UE já é uma União de Transferências do Sul para o Norte quando há países – tipicamente os do centro/norte – que contribuem em termos líquidos para o orçamento comunitário?

Mal da União Europeia se o balanço dos seus créditos e débitos se resumisse a quem contribui em termos líquidos para o minúsculo orçamento comunitário.

Só para ser ter ua ideia, descontada a contribuição nacional, Portugal estará a receber líquidos por ano cerca de €3 mil milhões. O PIB anual português rondará os €213 mil milhões. Não é irrelevante nem mal vindo, mas convenhamos…

Se quisermos manter a conversa num nível simplista, podemos também dizer que quase metade desse valor regressa de imediato às Instituições da União Europeia sob a forma de juros que pagamos por nos estarem a emprestar cerca de 40% da dívida pública total. Mas é melhor não ficar tão pela rama pois servirá de pouco à tomada consciente de decisões críticas para o sucesso da UE.

Vivemos um momento de decisão histórica onde vários líderes políticos europeus, do Primeiro Ministro Português ao Presidente Francês passando pelos líderes Italiano e Espanhol, entre outros, a dramatizar claramente a importância desta hora.

O que se fizer ou deixar de fazer em termos de organização e ação do projeto europeu como resposta à crise sanitária e, principalmente, à crise económica que agora começa será decisivo para as próximas épocas da história europeia.

Em entrevista desassombrada prestada ao Financial Times, o presidente Francês, Emmanuel Macron, não teve pejo em recuperar exemplos da história comum europeia que tiveram consequências trágicas para a história de todo o planeta.

Um deles passou pela intransigência com que a própria França, na sequência da I Guerra Mundial para com os vencidos alemães que foram forçados a pagar reparações de guerra em moeda e em géneros completamente incomportáveis e que mantiveram o país, já de si destruído pela guerra, em estado de penúria, miséria e caos económico que veio a criar o caldo cultural ideal para o florescimento daquilo que foram as sementes do nazismos e da II Guerra Mundial.

França, no final da I Guerra Mundial, não falhou por falta de empatia e de solidariedade, falhou a si própria ao ter sido incapaz de antecipar o monstro que estava a criar e que veio a cobrar dezenas de milhões de vítimas diretas e indiretas, muitas delas de sangue francês.

O mundo hoje será diferente, mas não menos perigoso. Os movimentos radicais, que se alimentam do ódio, do medo do desconhecido, da diabolização do estrangeiro, da degradação da imagem do vizinho continuam aí, em crescimento e à espreita para tomar o poder. Para os combater é preciso ter uma atitude de grande abertura intelectual e de forte desconfiança face a visões simplistas do mundo que nos rodeia, por mais atrativas e cómodas que sejam.

Continua em: Série Europa II: O que está mal no projeto europeu e na Zona Euro

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