Série Europa II: O que está mal no projeto europeu e na Zona Euro

Zona Euro

O que está mal no projeto europeu e na Zona Euro é a continuação de Série Europa I: UE como veículo de Transferências do Sul para o Norte?

Explicar o que está mal no projeto europeu e, em especial, na Zona Euro não é fácil e merecerá uma arte que por aqui também não temos. Mas não deixa de ser crítico tentar. E um dos pontos é esta singularidade provocatória do título. Tanto que peleiam para que não haja a eternização de uma união de transferências do Norte e Centro para o Sul e Periferia na UE e afinal, se calhar, se formos além da superfície, podemos identificar um circuito em pleno funcionamento de exaustão de recursos no sentido inverso e consequente agravamento das desigualdade económicas já pré-existentes no momento na formação da Zona Euro.

Com pode isso estar a acontecer?  

Quando dois países tão diferentes como Portugal e a Alemanha, têm moedas distintas, sempre que o primeiro revela as suas fraquezas a sua moeda ressente-se perdendo valor. Do mesmo modo, sempre que o mais forte reforça os seus excedentes e pujança produtiva vê a sua moeda ser cobiçada e o seu valor aumentar.

No entanto, uma das consequências dessa desvalorização/valorização é a produção de um reequilíbrio entre os dois: o que têm a economia mais fraca terá maiores dificuldades em comprar importações (por exemplo os carros alemães ficam mais caros) e terá maior facilidade em vender as suas exportações a um alemão (fica mais barato comprar componentes para fabricar o carro em Portugal do que numa empresa concorrente na Alemanha). Ou seja, a própria economia pressiona a que se gaste menos com o exterior, se venda mais ao exterior e, com o enquadramento certo, se produza mais do que é necessário internamente, substituindo o que se importa pelo que se volta a produzir.

Se o país com a economia mais fraca resistir a ficar viciado neste mecanismo automático de reequilíbrio (que traz como face negra a vulnerabilidade a abutres que apostem na incerteza e na fragilidade, torpedeando a moeda no mercado) e tiver uma política de investimento sensata, em ambiente de bom relacionamento comercial, este mecanismo oferece-lhe uma oportunidade de encurtar as diferenças e, progressivamente aproximar as duas economias. E, claro, em situações de choque, oferece-lhe instrumentos, autonomia estratégica, a utilizar de forma excecional e especialmente eficaz, tanto mais eficaz quanto mais excecional a sua utilização.

O próprio mecanismo penalizará amargamente quem não fizer uma boa gestão dos seus recursos pois muitas das importações deverão ser criteriosamente escolhidas e incorporadas em processo produtivos que visem gerar valor. De outro modo, aplicar as escassas verbas – recorde-se que as importações serão caras – em bens de luxo ou fúteis ou para dinamizar setores onde será completamente impossível vir a ser competitivo, pode facilmente pagar-se com a ausência de divisas para adquirir bens essenciais que não sejam produzidos internamente. É nessa hora que os abutres se aproximam da presa procurando extrair valor de uma aposta no colapso económico. Nos anos 90 esta relação com os especuladores foi permanente e a verdade é que nem um país com a pujança do Reino Unido deixou de ser alvo desta ofensiva. Terá sido, aliás, um dos motivos para impulsionar a criação do Euro e uma das vantagens percebida de forma uma moeda internacional, com todo o poder combinado dos estados membros a suportá-la.

Continua em Série Europa III: O meu excedente será sempre o teu défice.

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