União Económica e Monetária: uma flauta sem orifícios

” (…) Nunca antes foi tão claro (…) o risco que foi criar uma União Económica e Monetária sem precaver a necessidade de construir uma arquitectura sólida de gestão macroeconómica ao nível da UE. Liberalizaram-se os mercados de capitais; aligeirou-se a regulação nacional sem a devida compensação a nível continental; retirou-se o espaço de manobra dos governos nacionais na gestão do ciclo económico (perda da política monetária e cambial, restrição das políticas orçamentais) sem se criarem mecanimos de ajustamento ao nível europeu; criou-se uma autoridade monetária totalmente independente com uma vocação autista para o controlo da inflação e que sente necessidade de se mostrar ainda mais ortodoxa sempre que a urgência de uma redução das taxas de juro se torna evidente e publicamente discutida.

Se o resultado de tudo isto for mesmo uma crise de dimensões históricas (que obviamente terá efeitos assimétricos, penalizando os mais desprotegidos), seria bom que ao menos ela servisse para mudar as instituições que governam o capitalismo contemporâneo, a começar pelas europeias. Infelizmente, nunca as rupturas históricas se deram em resultado da boa vontade, pelo que suspeito que tal só acontecerá se a crise for mesmo muito séria – e se quem sempre criticou a arquitectura existente encontrar as forças para fazer valer as suas posições.”

Ricardo Paes Mamede in Ladrões de Bicicletas.

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