No início de fevereiro de 2026 vaticinávamos que o cenário mais provável era não existirem novas mexidas nas taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE), mas a existirem, havia mais indicadores que suportassem uma nova descida do que uma subida. Poucas semanas depois, com o reacender da guerra em torno do Golfo Pérsico, o mundo mudou e é hoje muito mais provável que o BCE venha a ser pressionado a retomar as subidas das suas taxas de juro com vista a contribuir para controlar a inflação que se adivinha.
O atual conflito no Médio Oriente está a revelar-se particularmente disruptivo para o transporte marítimo e, em particular, para a distribuição de petróleo e seus derivados, levando a subidas rápidas e muito expressivas nos valores de transação global dos combustíveis.
Com a subida dos preços destas matérias-primas, que são ainda críticas em várias indústrias e setores como o dos transportes e da geração de energia para produção industrial, agrícola, extrativa, consumo humano, entre outros, o mecanismo de transmissão ao resto da economia é relativamente rápido e poderoso, levando, ao fim de algumas semanas, ao reaparecimento de níveis elevados de inflação.
O prolongar do conflito irá consolidar estes impactos e ameaçar alterar as expectativas quanto à evolução global dos preços e é este risco que irá acionar o BCE a agir, nomeadamente, procurando deprimir a atividade económica para mitigar o efeito sobre a inflação, mantendo-a o mais próximo possível dos 2% que, como se sabe, é a meta operacional do BCE.
Euribor: Ponto da situação em meados de março de 2026
A meio do mês de março, apesar de ainda não ter existido tempo para preparar uma intervenção do BCE ou até para ter dados para um mês completo de inflação após o início da guerra entre EUA/Israel e Irão, a verdade é que o mercado de empréstimos interbancários no espaço Europeu já reagiu introduzindo alterações significativas nos valores das várias Euribor.
Eis um breve ponto da situação:
- A Euribor tem subido em todos os prazos, sendo a subida especialmente significativa nos prazos mais longos.
- A Euribor a 12 meses encontra-se já há alguns dias acima dos patamar de 2,5% (2,54% a 16 de março).
- A Euribor a 6 meses está acima dos 2,3% (2,312% a 16 de março).
- A Euribora 3 meses está acima dos 2,15% (2,157% a 16 de março). A propósito da euribor a 3 meses, recorde-se que no inicio de fevereiro registava valores claramente abaixo de 2%.
A variação destas taxas de um dia para o seguinte é ainda expressiva e tendencialmente em alta, pelo que não se antecipa que estejamos num ponto de equilíbrio. Ou seja, as taxas Euribor, mantendo-se as atuais condições, deverão continuar a aumentar (ver forward rates para a Euribor aqui).
Perspetivas para o futuro próximo e quem irá sofrer mais impactos
Qualquer evolução futura dependerá certamente do nível de disrupção económica e duração dessa disrupção induzida pela instabilidade geopolítica.
Correndo o risco de os factos voltarem a mudar substancialmente em pouco tempo, à data em que escrevemos este artigo, a perspetiva mais razoável é a de antecipar mais inflação, estagnação económica e juros nominais mais altos.
O ambiente económico será mais hostil para o desenvolvimento de atividades económicas e para quem dependa de fontes de rendimento fixas como salários e pensões, mas também para quem esteja fortemente exposto a dívida remunerada a taxa variável ou dependa fortemente de combustíveis fósseis para desenvolver a sua atividade.
