Série Europa VIII: O princípio do fim ou de uma nova era, Europa?

Europa

O princípio do fim ou de uma nova era, Europa? é a continuação de Série Europa VII: Nem Caridade, nem Solidariedade: Bem Comum e conclusão da série.

E mais uns anos passaram onde os países ricos, na prática, continuaram a deter uma moeda mais fraca do que deviam se estivesse sozinho, moeda essa que assim, menos valorizada, tornava as suas exportações mais competitivas, em especial face ao exterior da UE.

No norte e centro conseguiu-se com a Zona Euro, aquilo que a Itália, grande fã das desvalorizações competitivas (uma desvalorização do valor da moeda por via da intervenção do banco central nacional via taxa de juro e emissão monetária) nunca conseguiu na sua história: beneficiar de uma moeda permanentemente a desconto e como tal indutora de maior competitividade das exportações e desincentivo das importações sem terem que suportar a parte negativa que, na realidade, estava a ser entregue aos países do sul e da periferia, que ofereciam o lastro necessário a este permanente desequilíbrio benigno para o norte e centro e destruidor e castrador para o sul e a periferia sempre a correrem contra o prejuízo.

Foi e é neste contexto que a Alemanha bateu todos os recordes históricos do seu excedente comercial, um excedente que neste contexto perde quase todas as suas consequências negativas. Afinal, para um excedente cada vez maior, maiores os déficit no sul e periferia que assim garantiam que o Euro nunca atingisse um estatuto de moeda demasiado poderosa.

Qual o incentivo para o norte e centro sair deste status quo? Porquê investir capital político a explicá-lo à população local se até está ao dispor um racional simplista mas atrativo de responsabilizar moralmente o sul e periferia pelos seus infortúnios?

O incentivo nunca viria imediatamente de dentro do Norte e centro e teria de acontecer algo verdadeiramente significativo para quebrar este circuito de forma drástica. De outro modo, o projeto europeu poderia (poderá) apodrecer lentamente sem grandes quebras dramáticas. A correr mal – com saídas desordenadas, defaults e afins – muito provavelmente aconteceriam sempre no turno do político seguinte.

E assim andávamos até que o malfadado COVID-19 e a sua SARS-Covis-2 entram em cena.

E é aqui que estamos. Numa nota positiva, talvez nunca como hoje – pelo menos desde o desaparecimento da geração que fez e viveu a última guerra mundial – tivemos tantos na Europa, incluindo a França, a Itália e, talvez, a Alemanha a perceberem que, egoisticamente, o facto do vizinho poder ficar pior do que eu, quando eu próprio vou ficar mal, é capaz de ser triste consolo ou consolo algum.

Aos poucos, o discurso da solidariedade para com os desfavorecidos vai sendo substituído pelo racionalismo, pelo bom senso e pelo interesse próprio que, afinal, é compatível com o bem comum.

O discurso da caridade ou mesmo da solidariedade é largamente deslocado face ao que, de facto, está a acontecer há 20 anos na Zona Euro. O interesse próprio é aliás dependente do bem comum, mais do que nunca na história do continente.

O egoísmo nacional das vistas curtas e das visões simplistas de uma realidade complexa, terá que dar lugar a outro mais inteligente, mais estratégico, mais sistémico e menos conjuntural. Um interesse que permite ao continente, como um bloco, consolidar-se como projeto de progresso e bem-estar social e como farol mundial de valores, tenacidade e liderança partilhada. Um que tem tido péssima comunicação junto das massas e que afinal está na base do modo de estar e de ser tão caro à larga maioria dos europeus.

Se fizermos esse caminho, tal como parece defender uma maioria de líderes europeus, a Zona Euro poderá reformar-se, e a União Europeia poderá caminhar para se constituir como um verdadeiro projeto e união política.

Mas, à data em que se escrevem estas linhas, a poucos dias de um conselho europeu decisivo, esse caminho está longe de poder ser dado como garantido e a verdade é que décadas de meias histórias, desinformação, distanciamento político face à população e de ressentimento também criaram o caldo adequado para fertilizar um péssimo futuro comum.

Por onde irás Europa? Para onde vamos?

Fim

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2 Comentários

  • Artur Fernando Barreto Responder

    No principio dos anos 70 governava Marcelo Caetano com moeda própria, e sem submissão de ninguém, isto é, com total soberania e independência, com fronteiras, e com um crescimento do pib de 10%..Quer com o regime adjectivado de democrático, quer com a moeda comum o EURO…Pergunto aonde estão as benfeitoria de todas estas fatídicas mudanças..? Crises constantes ora financeiras, ora económicas, ora vírus de toda a espécie..!

    • Amora de Bruegas Responder

      Bem observado! Inicialmente, TODA a esquerda, incluindo o PS, eram contra a adesão à CEE, que consideravam um “clube de ricos”. Com a “eficiente” política marxista, em menos de 3 anos (74-77) arruinaram a economia nacional e conquistaram uma bancarrota (78). Foi em virtude desta catástrofe que o PS mudou de posição, pois perecebeu que tinham destruído Portugal e era necessário arranjar forma de banquear o que fizeram. De lá para cá, o que de positivo tem havido é fruto das esmolas, que não impedem que estejamos na cauda da Europa. Fazendo um Balanço económico-financeiro-social, constatamos que a comclusão é francamente negativa, nomeadamente em virtude do aumento da promiscuidade e das violências domésticas, escolares e hospitalares…, algo que antes, NÃO havia!

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