Série Europa VI: Gato escondido com Desequilíbrio de Fora

Dinheiro

Gato escondido com Desequilíbrio de Fora é a continuação de Série Europa V: Os Fundos Rasos.

 

Esta realidade, o desequilíbrio estrutural embutido na Zona Euro, acabou por ser escondido, durante vários anos, pelo acesso ao crédito de que já falámos. Um crédito que os bancos do Norte animadamente ajudavam a financiar para que os do Sul conseguissem manter um fluxo de compras permanente junto dos produtores do Norte. Fluxo esse que gerava cada vez mais excedentes enquanto no Sul se multiplicavam os vários défices, mais privados do que públicos, sublinhe-se.

Recorda-se do que acontecia pré-euro quando algum país aumentava excedentes e do outro lado o comprador aumentava o défice?

A moeda do primeiro valorizava de tal ordem face à do segundo que era colocado um travam automático a mais compras por parte do mais endividado levando a que o excedente do mais rico regressasse para um patamar inferior por ter perdido clientela.

O problema é que com o Euro esse mecanismo desapareceu e, pior, tínhamos agora dinheiro barato. O mecanismo que desapareceu, de certa forma, definia automaticamente o que era “viver acima das suas possibilidades“. Como? Deixava de ser possível comprar ou as escolhas seriam difíceis.

Agora, o Norte precisava de emprestar para que o sul continuasse a comprar e todos viveram felizes até que… Um dia houve uma crise global e como em todas as crises, pelo menos a primeira reação, costuma ser egoísta. O fechamento com os meus, a auto-preservação, o garantir mais depósitos aos meus ainda que isso lançasse o pânico e o caos no vizinho do lado…

Essa foi também a reação na Zona Euro ao ponto de até os famosos mercados terem sido apanhados de surpresa. Afinal, a Zona Euro tinha uma regra singular distinta da de todas as restantes zonas monetárias do planeta: cada Estado estava por sua conta, não havia mecanismos comuns de reequilíbrio que substituíssem o cambio, a taxa de juro local ou até a emissão de moeda. Afinal, a nova moeda nacional dos membros da Zona Euro estava “criada” e eram as emissões da dívida e num aí regressaram os especuladores, patrocinados pelo absurdo sistema de acesso aos mercados centrado numa indústria inquinado de ratings incompetentes.

Em pouco tempo, todo o projeto do Euro for posto em causa, mas foram precisos largos meses para que todos tivessem efetiva noção dessa ameaça. Foi preciso, em meados de 2012, o legalmente limitado Banco Central Europeu jogar com a semântica dos tratados para conseguir desenhar um conjunto de medidas de política económica que veio, objetivamente, oferecer uma segunda oportunidade de unificação do euro e das suas economias.

E assim foi, não sem que os preceitos morais e ideológicos, centrados numa visão incompleta do mecanismo de interligação entre as economias da região, uma visão incompleta de ecossistema, viesse ditar condicionalidades: austeridade, sacrifício à bruta, primeiro num movimento rápido (front loading) depois, perante o fracasso do choque rápido de austeridade numa ação continuada de anos, décadas, onde a política orçamental foi ditada pela burocracia dos gestores “independentes” designados pelo norte e centro nas instituições financeiras de resgate entretanto criadas. Seguiram-se anos de dança, de tentativa e erro, essencialmente de erro e de reconhecimento lento e agonizante desse erro.

Um reconhecimento que, para alguns parceiros, na realidade, nunca foi genuíno como as dificuldades atuais de entendimento, perante uma crise que a todos afeta e que não tem qualquer relação com as diferenças intrínsecas de cada país, tem revelado.

A atração das ideias simples, mas também simplistas, em especial quando oferecem uma sensação de superioridade moral continua a ser inebriantes.

Continua em Série Europa VII: Nem Caridade, nem Solidariedade: Bem Comum

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