O número de empregados no Estado aumentou 1,7% em 2025 logo, como pode o título deste artigo fazer sentido? Vejamos: a síntese estatística do emprego público referente ao último trimestre de 2025 produzida pela Direção-Geral da Administração e Emprego Público, revela que há um número recorde de pessoas empregadas no Estado: 766 278 indivíduos (consulte aqui o ficheiro Excel da DGAEP).
Como dissemos, este valor é superior em 1,7% ao que se havia registado um ano antes. Contudo, se enquadrarmos estes valores no que sucedeu na globalidade da economia nacional, quer quanto à evolução da população ativa, quer quanto ao total de indivíduos empregados, descobrimos que o peso relativo do Estado no mercado do trabalho está encolher.
Na realidade, entre 2024 e 2025, a população ativa aumentou 2,7% atingindo as 5612,4 mil pessoas e o total do emprego aumentou 3,2% atingindo as 5275,3 pessoas.
Comparando estes números com o crescimento de apenas 1,7% na força de trabalho do Estado, no mesmo período, permite-nos concluir que o total da força de trabalho do Estado continua a perder peso face a estas outras duas grandezas.
Ritmo de reforço do emprego no Estado não será suficiente para manter a capacidade de serviço face ao maior crescimento da população ativa e empregada
Na prática, a menos que o Estado tenha conseguido ganhos de produtividade significativos neste mesmo período entre 2024 e 2025 (na realidade este fenómeno tem já vários anos) e que não tenha existido um aumento das solicitações de serviços públicos, o mais natural é que o Estado tenha perdido capacidade de manter o nível de serviços e provavelmente a qualidade de serviços durante este ano pois o rácio de funcionários públicos por ativos/empregados está em queda.
No final de 2025, o peso do emprego público na população ativa era de 13,5% e na população empregada era de 14,4%. Em ambos os casos, são dos valores mais baixos, desde 2011, para estes indicadores.

FONTE: DGAEP
Junte-se a este facto um outro dado que coloca o peso atual do emprego público na população ativa bem abaixo daquele que é registado na média dos países da OCDE e da União Europeia. Recordemos a este propósito o artigo “Há 21 países da OCDE onde o Emprego Público é mais relevante do que em Portugal” que retrata uma realidade que, muito provavelmente, com a evolução registada desde finais de 2023 até finais de 2025, não se terá alterado na sua essência.
Envelhecimento e necessidade de enfrentar catástrofes e aumentar resiliência pressionam mais o Estado
Note-se ainda que a hipótese de que não existiram mais solicitações de serviços públicos não é de todo garantida.
Saúde e envelhecimento
Desde logo porque Portugal continua a registar um agravamento do seu nível de envelhecimento o que leva ao aumento da procura de serviços de saúde. O Eurostat assinalou que Portugal é, neste momento, o segundo país da Europa com a mais elevada idade mediana, acima dos 47 anos. Ou seja, metade da população residente tem mais de 47 anos. Só a Itália tem um registo mais idoso.
Catástrofes, segurança e resiliência
Por outro lado, tem sido evidente a crescente exigência de intervenção pública para atender às necessidades de planeamento integrado, vistoria, prevenção, mitigação e reforço ou até “mera” reposição de capacidade de infraestrutura, muita dela pública, que eventos como os incêndios cada vez mais comuns e destrutivos e agora as inundações e tempestades igualmente destrutivas têm provocado.
Tudo aspetos que recomendam mais capacidade pública, tanto em quantidade como em qualidade (veja-se o caso do LNEC que deverá ter dificuldades com o seu quadro atual em conseguir monitorizar excecionalmente mas também de forma regular e contínua, o edificado do país, das barragens aos viadutos, passando pelas estradas, pontes, diques e demais infraestruturas críticas).
A juntar a estes aspectos, há ainda um cenário geopolítico mais instável, que se deverá refletir numa maior necessidade de autonomia estratégica nacional ao nível da defesa e exercício da soberania (Portugal tinha a 31 de dezembro de 2025 um total de empregados nas Forças Armadas de 28839 pessoas para 44424 efetivos nas Forças de Segurança onde se destacam a PSP e a GNR).
Conclusão
Em suma, estaremos a ter o adicional de capacidade do Estado de que necessitamos?
Se procurarmos responder com algo medido pelo número de trabalhadores, não deverá estar a suceder pois, como aqui sublinhamos, apesar de haver um aumento nominal de empregados públicos, e de este até ser um valor “recorde”, este fica significativamente aquém do que está a suceder no resto da economia e do que deverá ser o aumento da necessidade de intervenção pública.
Este é um tema que continuaremos a acompanhar.
Por curiosidade, terminamos com a tabela da DGAEP referente ao “Emprego no setor das administrações públicas por tipo de entidade, segundo o subsetor“. Encontra estes e outros dados na Excel citado no início deste artigo.
| Unidade: posto de trabalho | 2025 | Peso |
| 31 dez(p) | % | |
| ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS | 766 278 | 100,0 |
| ADMINISTRAÇÃO CENTRAL | 571 628 | 74,6 |
| Agrupamento de Centros de Saúde (a) | 0 | 0,0 |
| Associação, Cooperativa e Fundação | 4 905 | 0,6 |
| Centro de Formação Profissional | 1 323 | 0,2 |
| Direção Regional (a) | 0 | 0,0 |
| Direção-geral | 26 172 | 3,4 |
| Entidade Administrativa Independente | 1 333 | 0,2 |
| Entidade Pública Empresarial – exceto do SNS (b) | 8 218 | 1,1 |
| Entidade Pública Empresarial – do SNS (c) | 148 755 | 19,4 |
| Estabelec. de Educação e Ensino Básico e Secundário | 191 228 | 25,0 |
| Estrutura Atípica e Estrutura de Missão | 11 449 | 1,5 |
| Forças Armadas | 28 839 | 3,8 |
| Forças de Segurança | 44 424 | 5,8 |
| Gabinete de Membros do Governo | 1 172 | 0,2 |
| Inspeção-geral | 2 224 | 0,3 |
| Instituto Público (d) | 30 005 | 3,9 |
| Órgão Independente | 684 | 0,1 |
| Regimes de Requalificação/Valorização Profissional (e) | 5 | 0,0 |
| Secretaria-geral | 1 625 | 0,2 |
| Serviços externos MNE | 1 831 | 0,2 |
| Sociedade Anónima | 7 034 | 0,9 |
| Tribunal (f) | 12 032 | 1,6 |
| Unidade hospitalar – Instituto Público (g) | 0 | 0,0 |
| Unidade Orgânica de Ensino e Investigação (h) | 48 370 | 6,3 |
| ADMINISTRAÇÃO REGIONAL E LOCAL | 184 421 | 24,1 |
| ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DOS AÇORES | 19 628 | 2,6 |
| Direção Regional | 3 392 | 0,4 |
| Entidade Pública Empresarial Regional | 3 478 | 0,5 |
| Estabelec. de Educação e Ensino Básico e Secundário | 7 554 | 1,0 |
| Estrutura atípica | 1 643 | 0,2 |
| Gabinete de Membros do Governo Regional | 173 | 0,0 |
| Inspeção Regional | 135 | 0,0 |
| Instituto Público | 699 | 0,1 |
| Órgão Independente | 200 | 0,0 |
| Secretaria-geral | 98 | 0,0 |
| Sociedade Anónima | 236 | 0,0 |
| Unidade de Saúde | 2 020 | 0,3 |
| ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DA MADEIRA | 21 084 | 2,8 |
| Direção Regional | 3 729 | 0,5 |
| Entidade Pública Empresarial Regional | 6 068 | 0,8 |
| Estabelec. de Educação e Ensino Básico e Secundário | 8 288 | 1,1 |
| Estrutura Atípica e Associação (i) | 115 | 0,0 |
| Gabinete de Membros do Governo Regional | 674 | 0,1 |
| Inspeção Regional | 124 | 0,0 |
| Instituto Público | 1 098 | 0,1 |
| Órgão Independente | 123 | 0,0 |
| Sociedade Anónima e Sociedade por Quotas | 865 | 0,1 |
| ADMINISTRAÇÃO LOCAL | 143 709 | 18,8 |
| Área Metropolitana | 76 | 0,0 |
| Assembleia Distrital (j) | 0 | 0,0 |
| Associação; Cooperat; Fundação; Comunid Intermunic. | 2 597 | 0,3 |
| Município | 118 297 | 15,4 |
| Empresa Municipal e Intermun; Entid. Empres. Municip. | 4 237 | 0,6 |
| Entidade Regional de Turismo (k) | 0 | 0,0 |
| Junta de Freguesia | 17 734 | 2,3 |
| Sociedade Anónima e Sociedade por Quotas | 768 | 0,1 |
| FUNDOS DE SEGURANÇA SOCIAL | 10 229 | 1,3 |
| Instituto Público e Fundo de Segurança Social | 10 229 | 1,3 |