O Índice de Bem Estar apurado pelo INE bateu em 2024 o recorde da série iniciada em 2004. Nunca nestes 20 anos o conjunto dos 10 índices sintéticos e respetivas dimensões que dão forma ao Índice de Bem Estar relevaram uma situação tão positiva. A evolução neste 20 anos teve soluços durante a crise financeira (2008), durante o período da troika (2011-2013) e no pico do COVID (2020) mas a verdade é que a tendência tem sido clara e francamente positiva.
Uma análise mais fina revela que o andamento não é, contudo, uniforme para todas as variáveis analisadas. Há quatro que se destacam fortemente do pelotão de sinais positivos mas em contraciclo e outros quatro que merecem destaque por serem especialmente positivas. A publicação do INE merece uma leitura completa pela riqueza da informação que divulgam e que aqui apenas abordamos parcialmente.
Pela positiva – mais consumo mas com património líquido das famílias estagnado:
O INE destaca que 8 das 10 dimensões melhoraram entre 2004 e 2024 e destaca em particular:
“Os domínios Educação, conhecimento e competências, Segurança pessoal e Bem-estar económico foram os que demonstraram uma evolução mais favorável.”
Sendo o andamento global das dimensões analisadas e dos seus domínios predominantemente positivos, ainda assim há alguns domínios que se revelam exuberantemente positivos na sua evolução recente.
- Um dos mais significativos é o domínio/indicador da despesa de consumo individual per capita integrante do Índice de Bem Estar económico. Desde 2021 este indicador tem vindo a disparar sendo o único indicador deste índice a superar a marca dos 50 (numa escala de 0 a 100). Ou seja, os portugueses, desde pelo menos 2004 num registaram uma situação tão favorável em termos de despesa para consumo individual, em média.
- Uns furos abaixo na escala mais igualmente com uma evolução ascendente pronunciada surge o rendimento monetário disponível mediano por adulto equivalente que atingiu os 30 pontos em 2023.
- Apesar destas notas, há dois outros indicadores que serão um melhor avaliador da sustentabilidade desta ascensão que não revelam a mesma exuberância. A saber, o património financeiro líquido dos particulares e o património total líquido dos particulares. Ambos os indicadores estabilizaram desde 2021 indiciando que o acréscimo do consumo estará a ser suportado por dívida sem que, para já, isso pareça comprometer a estabilidade financeira das famílias que não degradaram a sua situação patrimonial.
- Finalmente, pelo positiva, um destaque para a dimensão Educação que coleciona um conjunto do domínios com evoluções francamente positivas tanto para jovens como para menos jovens através da evolução da aprendizagem ao longo da vida (ainda assim regista-se uma degradação dos índices de literacia da população e de abandono escolar – gráfico no interior da publicação do INE) .

Pela negativa – perceção sobre economia, governação, serviços públicos e balanço vida-trabalho degradam-se:
- Uma delas está incluída na dimensão de bem estar económico. Apesar do indicador geral de bem estar económico está em máximos em 2024, a proporção de pessoas satisfeitas com o estado atual da economia do país não pára de cair, depois de ter atingido um pico positivo em 2018. Note-se que em 2018, este indicador tinha acumulado uma melhoria de mais de 30 pontos (numa escala de 0 a 100) face a 2004. No entanto, entre 2018 e 2024 caiu sucessivamente todos os anos, fixando-se ligeiramente abaixo dos 20 anos, perdendo assim cerca de 1/3 da proporção que havia conquistado nos primeiros 14 anos.
- Outro aspeto analisado e igualmente em contraciclo não se prende apenas com um indicador isolado mas antes com uma dimensão inteira de análise, a dimensão da Qualidade de Vida. Também esta dimensão melhorou entre 2004 e 2018, no entanto, de então para cá, têm predominado as variações no sentido descendente e 2024 não regista nenhum máximo histórico. De entre os domínios que integram o Índice de Qualidade de Vida há uma que se destaca claramente por estar a ser persistentemente negativa: o domínio da Participação cívica e governação. A evolução desde 2028 tem sido especialmente negativa acompanhado por um disparar do índice de participação eleitoral e por uma degradação a pique da qualidade percebida dos serviços públicos.
- Um terceiro domínio em contraciclo com a avaliação do índice global em que se integra é o da proporção da população que avalia positivamente os serviços de saúde. Este indicador atingiu o máximo em 2020, no pico do Covid e tem vindo a cair abruptamente desde então estando perto de eliminar toda e melhoria que havia acumulado entre 2004 e 2020. Apesar deste indicador, o Índice de Saúde global, apesar de não registar valores de crescimento exuberante nos últimos anos, tem resistido num situação de estabilização próxima do máximo registado em 2020 e agora repetido em 2024.
- Finalmente, uma quarta nota para uma outra dimensão que surge com uma evolução contrária à identificada no indicador de bem estar global: a dimensão do Balanço vida-trabalho. Neste caso, o INE apurou que o Índice melhorou entre 2004 e 2010 e tem vindo a degradar-se desde então com uma estabilização nos últimos quatro anos, mas num patamar historicamente baixo, a arrastar pelo fundo.

Metodologia:
O INE iniciou a difusão deste exercício em 2013 (seguindo de perto as melhores práticas internacionais para este tipo de indicadores) e calculou, num primeiro momento, a série de 2004 a 2012. De então para cá tem realizado atualizações anuais.
Note-se que o INE normalizou os índices tomando como comparação os valores obtidos para um conjunto de países europeus, referidos na Nota técnica. Assim, um valor elevado de um índice significa que Portugal se aproxima, para esse indicador, dos valores mais desejáveis para esse conjunto de países. Cada indicador varia entre 0 e 100. Quanto mais próximo estiver de 100, mais se aproxima do valor máximo que esse indicador pode assumir, em todo o período em análise, no conjunto dos países de referência. Pelo contrário, se se situar próximo de 0, aproxima-se do valor mínimo para esses países.
Vale a pena ver um excerto das notas metodologicas do INE sobre estes indicadores (documento metodológico completo aqui).
Do ponto de vista concetual, as Condições Materiais de Vida e a Qualidade de Vida foram identificadas como perspetivas essenciais na avaliação da evolução do bem-estar. Neste contexto, procurou-se que cada perspetiva fosse representada com indicadores, os quais podem ser consultados nos Quadros em Anexo, agrupados em domínios de análise.
Na perspetiva das Condições Materiais de Vida, foram considerados três domínios de análise:
Bem-estar económico – através da avaliação das possibilidades correntes e futuras de consumo, da realização do bem-estar material e da desigualdade de distribuição de rendimento;
Vulnerabilidade económica – através da medição da pobreza monetária, da privação material e social, do endividamento e da vulnerabilidade da habitação;
Emprego – através da caracterização da participação e inclusão social, da vulnerabilidade do trabalho, da disparidade salarial segundo o sexo, e da qualidade do trabalho.Na perspetiva de Qualidade de Vida, foram considerados sete domínios de análise:
Saúde – através dos indicadores-resultado na saúde e da avaliação da prestação de cuidados de saúde;
Balanço vida-trabalho – através da avaliação da conciliação do tempo afeto à família e ao trabalho e da avaliação subjetiva do balanço vida-trabalho;
Educação, conhecimento e competências – através da caracterização da educação formal, da aprendizagem ao longo da vida, da qualidade de educação e nível de competências adquiridas e da produção de conhecimento e inovação;
Segurança pessoal – através da avaliação da criminalidade e da avaliação subjetiva da segurança pessoal;
Participação cívica e governação – através da avaliação da participação cívica e política e da confiança nas instituições;
Relações sociais e bem-estar subjetivo – através da avaliação do bem-estar subjetivo social e do bem-estar subjetivo individual;
Ambiente – através da avaliação de qualidade da água e do ar, da intensidade percecionada de ruído e da análise do destino final dos resíduos.


