O incómodo da memória na hora da verdade para a União Europeia

” (…) A crise da dívida no euro não é uma crise da Grécia, de Portugal, da Irlanda. É um problema no euro gerado pela desregulação financeira com epicentro nos Estados Unidos e agravado com a terapia de salvação de todos os bancos com políticas expansionistas aceleradas, a seguir ao colapso da Lehman Brother’s, em 2008. É preciso não esquecer que em 2009, por causa do sistema financeiro, o Grupo dos Sete e a União Europeia, e com ela o euro, diziam: “gastem, gastem e gastem, sejam mais keynesianos que Keynes”. Vivia-se no terror do colapso financeiro, de ver os bancos falirem, de reviver a Grande Depressão do início do século XX.

O que é que isso tem a ver com a Grécia ou até com a Irlanda e Portugal? Tudo. A oferta de crédito passou de praticamente infinito – é exagero, mas era assim que era percepcionado porque não havia praticamente restrições – para uma elevadíssima escassez no acesso ao crédito. Quando as águas passam de calmas para violentamente agitadas, quem sofre mais são, obviamente, os mais pequenos. Só depois chega a vez dos grandes.

Que importa, dirão os que no euro ainda se sentem protegidos desta tempestade financeira. É então hora de lembrar o poema “Indiferença” de Bertolt Brecht. “Primeiro levaram os comunistas/ Mas eu não me importei”, depois levaram os operários, os sindicalistas, os padres… Até que um dia… “Agora lavaram-me a mim/E quando percebi/Já era tarde”. Ainda não é tarde para salvar o euro e todos sabem como se faz.”

Por Helena Garrido, “Ainda não é tarde para salvar o euro?” in Jornal de Negócios

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