Preços do petróleo, um problema de contas

Ontem escrevi que o preço médio do petróleo (Brent e WTI) está claramente abaixo em 2007 quando comparado com o preço médio de igual período do ano anterior, concretamente: o preço médio do Brent medido em Euros caiu 8,7% face a igual periodo de 2006 e o do WTI caiu 12,2%.

Hoje leio no Jornal de Negócios (JNeg) que:

" (…) nas bolsas os combustíveis já subiram mais de 20% este ano para valores recorde, nas bombas abastecer o carro ficou 7% mais caro e também é de esperar preços máximos.(…)"

Como é esta divergência possível? As contas que surgem no JNeg comparam dois ponto no tempo, os preços de ontem ou de ante-ontem com o valor do último dia de transacção em 2006. Pelo menos é o que me parece pois as contas assim feitas batem certo com a base de dados a que recorri (EIA e BdP).

O problema com as fotografias é conhecido, tipicamente são mais pobres que os filmes quando o objectivo é contar uma história. Quando calculamos uma média vemos o filme que mesmo assim terá os seus problemas – a fila na sala em que o vemos altera a percepção que dele temos, por exemplo. Quando comparamos pontos, só olhamos para um fotograma. Contudo, as duas coisas são compatíveis, convém é termos a percepção que agitar uma fotografia à frente dos olhos não é o mesmo que estar a olhar para um filme. Assim sendo, não temos problema absolutamente nenhum.

Até mesmo o aumento dos combustíveis (aparentemente muito abaixo do aumento das matérias primas) referido na notícia tem a sua lógica. Mais uma vez estaremos a comparar o preço dos combustíveis de hoje com o registado em 31 de Dezembro de 2006. Contudo, sendo os preços que vemos nas bombas formados por médias de curto prazo (algo como o valor médio das últimas semanas nos mercados internacionais) é natural que não transmitam variações tão extremadas determinadas tendo por base a comparação entre apenas dois dias que terá sido o que foi feito para chegar aos 20% de aumento quanto aos preços das matérias primas. Ou seja, se para as matérias primas (o Brent por exemplo) pegássemos no preço médio das últimas semanas e o comparássemos com o preço médio das mesmas semanas do ano anterior, provavelmente chegariamos a uma variação bem mais próxima dos 7% do que dos 20. Alguém quer fazer as contas? 

O desafio adicional que aqui lanço é o do que apurar tal como fiz ontem, o preço médio dos combustíveis no consumidor final ao longo dos primeiros 9 meses de 2007 e compará-lo com os 9 meses do ano 2006. Estes números serão (quase) directamente comparáveis com os aqui apurados ontem e poderão permitir-nos apurar se os preços das gasolineiras têm respeitado grosso modo o andamento dos preços nos mercados internacionais.

Como curiosidade, e em jeito de apresentação de um acto do grande filme, o INE, no destaque sobre o índice de preços no consumidor divulgado há minutos, informa que, por exemplo, a classe de despesa "Transportes", onde se incuem os gastos com combustíveis, teve um contributo homólogo negativo face a Agosto de 2006, ou seja, os custos com transportes estiveram em Agosto de 2007 abaixo dos havidos em Agosto do ano anterior.

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