Spread Costs: um custo escondido mas muito relevante no mercado de acções

[wp_ad_camp_1]Imagine que quer comprar uma acção por 1€ (bid), vai ao mercado e o mais próximo que encontra é um vendedor disposto a vender por 1,1€ (ask). Temos uma diferença entre o preço de compra e venda de 0,1€ (um bid-ask spread de 0,1€).

Vamos supor que chegam a um acordo e realizam o negócio por 1,08€. Se atendermos que o preço médio apurado pela média da oferta bid e ask seria de 1,05€ temos um diferencial de 0,03€. Neste caso foi o comprador que admitiu ir além de repartir a diferença inicial entre o que oferecia (1€) e o que lhe pediam (1,1€), mas este aspecto é quase irrelevante (o de saber quem cede mais) pois num conjunto mais vasto de negócios encontraremos situações opostas. O que releva é a diferença face ao ponto médio, em cada negócio para um conjunto de negócios, uma diferença que em percentagem do ponto médio é de, neste exemplo hipotético 2,9%, temos então determinado o spread cost.

Agora imaginem que o bid era de 10€ e o ask era de 10,1€ e que o preço final do negócio ficava em 10,08€. Neste caso temos um ponto médio de 10,05€ e um diferencial idêntico ao do exemplo anterior, ou seja, de 0,03€ mas, neste caso, para um custo percentual de 0,30% (em vez dos 2,9% do caso anterior). O que mudou? Mudou a valor de base do título que é 10 vezes superior no segundo exemplo.

Além deste efeito, há vários aspectos que podem determinar alterações significativas no custo que representa a diferença entre preços existentes no mercado e os preços efectivos de realização de um negócio e note-se que estamos a falar de apenas uma fracção dos custos de transacção, pois além deste custo, muitas vezes “invisível”, podemos somar-lhe a comissão de corretagem, uma fracção do custo pela guarda de títulos, entre outros, de modo a obtemos o custo global de transacção.

Sucede que, como dissemos, nem sempre este spread cost é interiorizado como custo pelas partes e sucede que há inúmeros factores que o podem condicionar:

  • a liquidez (quantidade de acções disponíveis no mercado para negócio),
  • tick size, ou seja, o tamanho dos incrementos em fracções de euro que posso dar ao preço quando lanço uma proposta ao mercado,
  • mas também, como já vimos, o próprio valor do título (um tick num título que custa € 10 por acção tem um peso muito inferior ao de um título que custa 1€ e, consequentemente, poderá haver diferenças de base nos spread costs associados)
  • ou ainda a quantidade de títulos que quero comprar de cada vez (intimamente relacionado com a liquidez), entre outros.

Mas voltemos aos spread costs, a CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) publicou muito recentemente um estudo intitulado “Os Spreads Costs enquanto Elemento Implícito dos Custos de Transacção” onde se procurou averiguar como evoluiu este indicador na bolsa portuguesa entre 2000 e 2010, efectuando também algumas comparações com outras praças internacionais. Além de recomendarmos a leitura do artigo como forma de identificar alguns aspectos menos óbvios da compra e venda de acções, destacamos as conclusões que transcrevemos em anexo (sublinhados nossos) sendo uma das principais a que foi avançada pelo Jornal de Negócios em título de um artigo recente “Negociar acções mais valiosas sai mais barato”:

(…) Assim, a taxa de corretagem média (já acrescida de imposto de selo) dos 5 intermediários financeiros com maior quota de recepção de ordens via internet (BPI, BCP, BIG, Caixa Banco de Investimento e Activo Bank) era de 1,18‰ (1,33‰ em 2000 para os 5 intermediários financeiros com maior quota de mercado nessa data). Comparando esta taxa com o spread cost mínimo do PSI20 (…) (0,77‰), conclui-se que o spread cost representa 39,5% dos custos de transacção, correspondendo as comissões de corretagem a 60,5%. Daqui resulta que o peso do custo de spread nos custos de transacção diminuiu face a 2000 (ascendia a cerca de 50% nessa data).

“A comparação do spread cost de fecho do PSI20 entre 2000 e 2010 permite concluir que existe uma redução muito relevante do custo de spread para o grupo de acções que integram o principal índice nacional. Porém, entre 2000 e 2010, o valor médio do custo de spread das acções admitidas à negociação no mercado nacional aumentou. No entanto, este aumento não foi homogéneo para todos os grupos de acções, tendo havido situações em que o spread cost diminuiu de forma relevante (caso da generalidade das acções que já tinham custos de spread mais reduzidos) e situações em que o custo de spread aumentou de forma expressiva (casos das acções que já tinham custos mais elevados).

Este estudo igualmente permitiu concluir que: as acções que integram o PSI20 têm um spread cost menor que a generalidade das acções que compõem o mercado regulamentado da Euronext Lisbon; as acções com maiores capitalizações e com maiores preços têm um custo de spread menor que os demais; não se nota qualquer diferença estatisticamente relevante, ao nível das médias, entre acções do PSI20 e as acções com maiores capitalizações, as acções das empresas financeiras e as das empresas que adoptam o modelo anglo-saxónico de governo.

Constata-se ainda que o custo de spread dos diversos grupos analisados quando calculado através de um método em que se pondera o custo de cada negócio pela respectiva quantidade transaccionada exibe um custo de spread superior face a um método alternativo em que tal ponderação não é efectuada. Este resultado sugere que os investidores que fazem chegar ao mercado ordens de dimensão mais elevada fazem uma maior concessão em termos de preço e suportam um custo de spread maior. No que se refere ao facto de os negócios serem concretizados ao bid ou ao ask, conclui-se que, em média, não existem assimetrias relevantes no custo de spread consoante este seja suportado pelo vendedor ou pelo comprador.

Estabelecendo uma comparação com os índices mais representativos de outras praças europeias, conclui-se que o índice PSI20 é o que apresenta maiores custos de spread. Atente-se, porém, que esta situação pode resultar do facto de o PSI20 ser de entre os índices analisados aquele que apresenta um preço médio unitário das acções mais reduzido. Merece, porém, destaque o facto de o índice PSI20 ser aquele que apresentou a maior redução do custo de spread desde 2007.”

In Os Spreads Costs enquanto Elemento Implícito dos Custos de Transacção

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