O que terá de acontecer para que a nossa dívida seja sustentável?

Dívida sustentável? O economista Ricardo Paes Mamede publicou ontem um artigo intitulado “Ir aos mercados para ganhar eleições” no qual expõe o cenário esperado pelo FMI para que a dívida pública portuguesa seja sustentável e o confronta com a mais recente informação e análise económica.

Vale a pena ler para melhor perceber a alternativa, ou única via de consolidação que o nosso país tem pela frente. Eis um excerto que se deve complementar com a análise à política de recurso ao crédito externo via mercados da dívida com que o autor termina o seu artigo no Ladrões de Bicicleta.

“De acordo com o cenário apresentado pelo FMI nas 8ª e 9ª avaliações, para que a dívida pública portuguesa fosse sustentável seria necessário:

– um saldo orçamental primário próximo de 3% do PIB a partir de 2016
– um crescimento real do PIB de 1,8% ao ano
– uma taxa de inflação de 1,8% e
– uma taxa de juro dos novos títulos da dívida pública de 3,8%.
Agora, vejamos. Uma taxa de crescimento real do PIB próxima de 2% ao ano exigiria que a procura interna crescesse ou que a procura externa líquida (exportações – importações) aumentasse de forma muito acentuada. No entanto:
– O crescimento da procura interna é incompatível com a austeridade orçamental inerente a um saldo orçamental primário de 3%. Além disso, o elevado nível de endividamento das famílias e das empresas portuguesas, e os níveis historicamente elevados de desemprego e emigração, continuarão a limitar por muito tempo os níveis de consumo e de investimento.
– Quanto ao crescimento da procura externa líquida, ela depende não só da dinâmica das exportações e das importações. Só num cenário de recessão duradoura é que as importações não voltarão a aumentar – mas esse cenário contradiz a hipótese de crescimento de 2% ao ano. Para que a procura externa líquida aumente o suficiente para compensar o fraco dinamismo do mercado interno e a estabilização das importações seria necessário que se verificasse um salto inaudito nas exportações nacionais.
Ou seja, nas circunstâncias atuais, é pouco credível a taxa de crescimento anual do PIB assumida pelo FMI. Para além disso, a taxa de inflação ao longo dos últimos meses tem estado próxima de zero – longe, portanto, do valor assumido no cenário do FMI (1,8%). Uma vez que a dívida se expressa em valores nominais, quanto mais lento for o ritmo de subida dos preços, mais difícil se torna pagar a dívida acumulada. (…)”

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