Relatório Anual da Atividade de Capital de Risco – 2012 (CMVM)

Pode encontrar as mais recentes estatísticas e análises  críticas da CMVM sobre Capital de Risco em Portugal aqui => Relatório Anual da Atividade de Capital de Risco – 2012. Eis o Sumário Executivo:

“O sector do capital de risco em 2012 manteve a trajetória ascendente de ativos sob gestão. O montante gerido por operadores de capital de risco nacionais aumentou 18,3%, ascendendo a cerca de 3,1 mil milhões de Euros no final do ano.1 Esse movimento, à semelhança da tendência verificada nos últimos dez anos, ficou a dever-se ao lançamento de novos fundos de capital de risco ditos “de reestruturação”, com foco em empresas com necessidade de reestruturação financeira e de gestão (“turnaround”). Pelo contrário, as SCR, sob a forma societária, viram em 2012 reduzir o montante sob gestão para 637,2 milhões de Euros (-15,6% do que no final do ano anterior).
Tal como em anos anteriores, continuou a verificar-se uma forte concentração do valor investido num reduzido número de sociedades (as cinco maiores representavam 80,0% do montante gerido). Nos fundos, dez FCR equivaliam a 79,4% do valor sob gestão.
Relativamente à localização dos investimentos, verificou-se um aumento do valor investido em empresas residentes financiadas pelo capital de risco (+38,7%). Em sentido inverso, e em linha com o ano de 2011, o investimento em empresas não residentes diminuiu 13,8%.
O número de empresas alvo do capital de risco2 aumentou 4,3%. O valor dos investimentos em capital social de empresas residentes não cotadas diminuiu 13,1% sendo agora de 513,4 milhões de Euros. Nas empresas não residentes não cotadas esta diminuição foi menos acentuada (-8,9%), com o valor dos investimentos a cifrar-se em 540,7 milhões de Euros. Em contraponto, a rubrica ‘outros investimentos’ cresceu 71,1% nas empresas residentes, atingindo um valor de 1.629,6 milhões de Euros, o que contribuiu para o aumento do valor sob gestão. Neste âmbito, é de salientar o papel desempenhado pela componente dos suprimentos, que representaram cerca de 1.304,4 milhões de Euros, ou seja, 80,0% do total de ‘outros financiamentos’ das SCR e dos FCR, com um maior pendor nos FCR. O peso dos suprimentos (ou dívida) tem sido justificado como meio de trazer alguma rentabilidade aos FCR, face à incerteza implícita quanto à futura venda do ativo e consequentemente à recuperação dos montantes investidos. Porém, esta situação é sintomática de que, como já se referiu em relatórios similares em anos anteriores, frequentemente, os operadores de mercado, em vez de assumirem riscos acionistas, que se conformam com a natureza intrínseca do capital de risco, assumem posições típicas dos titulares de capital alheio (isto é, cedem capital em troca de um rendimento não dependente dos lucros das empresas), que é mais característica da atividade bancária.
No que respeita ao valor das participações em capital social de empresas cotadas, não cotadas e em unidades de participação de fundos de capital de risco conclui-se que (i) uma quantidade apreciável de participações (34,7%) não tem qualquer valor, e que (ii) as participações com valor superior a cinco milhões de Euros (6,8% do total) representam 76,0% do valor das participações geridas pelo capital de risco português. Trata-se de valores assimétricos que permitem concluir que o setor é heterogéneo em termos de sociedades, fundos e participações.
No final de 2012 o capital de risco apresentava os seus investimentos distribuídos fundamentalmente em quatro setores de actividade (o das indústrias transformadoras, o dos transportes e armazenagens, o da eletricidade, gás, vapor água quente e fria e ar frio e, principalmente, o das sociedades gestoras de participação social não financeiras), representando em conjunto 68,4% dos investimentos realizados durante o ano. Desses setores, excluindo as SGPS não financeiras (para os quais não se possuem dados), os demais apresentam um valor acrescentado bruto (VAB) por trabalhador que é 18% superior à média da economia nacional. O valor da carteira de investimentos em setores em que este indicador de produtividade relativa é inferior à média nacional (outras atividades de serviços; alojamento e restauração; atividades administrativas; educação; agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca; construção, comércio; e indústrias transformadoras) representou 24,2% da carteira de investimentos do capital de risco. Tal tem um especial significado na medida em que uma parte relevante da carteira de investimentos do capital de risco tem privilegiado investimentos em setores menos propensos à geração de elevado valor acrescentado.
No que diz respeito à análise dos investimentos pelas categorias venture capital e private equity, continua a observar-se uma grande discrepância de peso. No final de 2012 a primeira representava 12,1% dos investimentos efetuados e a segunda 87,9%. Estes números não englobam, no entanto, a atividade desenvolvida por vários business angels não registados na CMVM. No âmbito do private equity, deve ser dado destaque ao capital de risco na chamada fase de ‘turnaround’, que representou cerca de 41,0% dos investimentos efetuados, suplantando a fase ‘expansão’ (24,9% dos investimentos efetuados), tradicionalmente a recetora principal do montante investido pelos operadores de capital de risco. Nos casos em que a respetiva gestão (ou parte da gestão), com o apoio de investidores de capital de risco, adquire o capital da empresa (MBO), o valor investido apresentou um peso com pouco relevo (4,9% do total investido). No que respeita ao venture capital, o peso do investimento em empresas start up correspondeu a 8,3% do total.
O investimento líquido, apurado pela diferença entre o montante total de aquisições e de alienações, situou-se em cerca de -75,5 milhões de Euros (16,9 milhões de Euros em 2011), ou seja, -2,4% do valor que se encontrava sob gestão no final do ano (0,6% em 2011). O desinvestimento deu-se fundamentalmente nas SCR (89,3 milhões de Euros), já que os FCR investiram em termos líquidos 13,8 milhões de Euros. Se forem consideradas as operações realizadas quer por SCR quer por FCR constata-se que a rotação anual das carteiras de investimento em capital de risco – calculada através do quociente entre a soma das operações de aquisição e alienação efetuadas ao longo do ano e o valor sob gestão no período precedente – ascendeu a 18,3% (5,1% em 2011). Detalhando as operações de aquisição e de alienação realizadas, o capital de risco realizou 126 aquisições (totais ou parciais) de participações e desinvestiu em outras 89. Uma percentagem muito significativa das aquisições e das alienações, respetivamente 35,7% e 50,6%, apresentam valores inferiores a 50.000 Euros. Todavia, oito operações de aquisição, bem como igual número de alienação, representaram, respetivamente, 78,1% e 91,8% do valor total de aquisições e alienações de participações, o que ilustra uma vez mais a assimetria na dimensão dos investimentos (e desinvestimentos) efetuados pelo capital de risco em Portugal.
Assistiu-se a um aumento ligeiro do domínio acionista do capital de risco nas empresas participadas, se for aferido pelo número total das participações (19,4%, contra 17,9% em 2011). O domínio acionista do capital de risco nas empresas participadas ganha uma relevância acrescida se a análise for realizada em função do valor total das participações (29,9%, contra 25,8% em 2011). Em 424 empresas participadas, representantes de 48,8% do valor investido (534,9 milhões de Euros), o capital de risco detém uma percentagem inferior a 30% do capital.
A estratégia de desinvestimento, em termos de número de operações, concentrou-se fundamentalmente em operações de recompra (pela equipa de gestão ou acionistas), venda a terceiros e write-off. A venda a terceiros foi determinante neste domínio (231,5 milhões Euros, o que corresponde a cerca de 83,0% do total). O número de operações de desinvestimento com perda total do investimento (write-off) aumentou, tendo ocorrido um total de 26 situações em 2012, contra 10 operações similares verificadas no ano anterior. À semelhança do verificado nos últimos anos, continuou a não haver introdução de novas empresas no mercado de capitais.
Quanto ao resultado das operações, cerca de 30,3% resultaram em menos-valias apuradas face ao valor registado em carteira (27,5% em 2011). As mais-valias líquidas registadas nas operações de desinvestimento em 2012, 29,8 milhões de Euros, comparam favoravelmente com os 6,1 milhões de Euros obtidas no ano anterior. No entanto, as conclusões alteram-se substancialmente quando se apuram as mais-valias tendo por base o valor de aquisição. Neste caso, além de 52,8% das operações terem registado menos-valias, as menos-valias líquidas obtidas em estratégias de desinvestimento seriam de 22,3 milhões de Euros.
Ainda no que respeita às fases de investimento em que se encontrava o capital de risco aquando da alienação das participações, as operações de capital de substituição – aquisição de ações existentes numa empresa a uma outra sociedade de capital de risco ou a outro(s) acionista(s) – representaram 64,9% (19,3 milhões de Euros) do montante obtido com mais-valias, tendo por base o valor registado em carteira. Apurando as valias com base no preço de aquisição, o capital de risco teria registado menos-valias de 32,4 milhões de Euros. Por oposição, a fase de investimento de expansão registou mais-valias de 416 mil Euros face ao valor em carteira e 9,2 milhões de Euros face ao preço de aquisição. Destaque ainda para as operações de ‘seed capital’ (projetos empresariais em estágio inicial ou estágio zero, em fase de projeto e desenvolvimento, antes da instalação do negócio), cujas mais-valias de 9,8 milhões de Euros representaram 33,2% das obtidas pelos operadores de capital de risco nacionais.
Nas operações contratualizadas a prazo, o valor presente dos contratos totalizou cerca de 63,8 milhões de Euros, tendo sofrido uma redução de 43,6 milhões de Euros face a 2011. No que respeita ao tipo de vinculação assumida nesses contratos, as opções representaram cerca de 71,9% dos contratos realizados e as operações a prazo (futuro/forward) 28,1%. Quanto ao critério de fixação do preço das operações a prazo, a maioria das operações remete para as tipologias ‘avaliação’ (53,3% dos contratos) e para ‘fórmula de cálculo definida em contrato’ (19,4% dos casos). Os contratos com maior montante financeiro, no montante de 32,8 milhões de Euros, encontram-se indexados à Euribor (capitalização do valor de aquisição).

A quase totalidade das participações detidas pelo capital de risco respeita a empresas não cotadas, sendo predominante a metodologia de valorização em que se atualizam os fluxos de caixa futuros da empresa participada (DCF ou discounted cash flow). Tal como em 2011, quer as SCR quer os FCR apresentam menos-valias potenciais, a que não será alheia a envolvente macroeconómica adversa, ou ainda um grande peso do investimento novo feito nos últimos anos e que só a médio ou longo prazo gerará resultados positivos. Assim, as SCR apresentaram em 2012 menos-valias potenciais de 11,5%, e nos FCR ascenderam a cerca de 17,0%.

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