A caridade cega, não compensa

A caridade cega. Receber gratuitamente (o reverso de Dar para aliviar consciências) fora do enquadramento de situações absolutamente limite e sem que se garanta o destino efectivo da ajuda é parte importante do problema de desenvolvimento de um país que tente construir um futuro.

A economia ainda tem algumas relações causa-efeito facilmente antecipáveis e no caso que faz hoje notícia e que aqui se publicita, o bom samaritanismo (seja ele individual ou colectivo por via apoio internacional) pode ter consequências catastróficas no desenvolvimento económico dos países que tentam construir uma economia. Além de que por vezes o que se pensa fazer seja de raiz substancialmente diferente do que é feito.

Veja-se o exemplo do negócio da recolha de roupas usadas que o Portugal Diário hoje volta a trazer para a ribalta (aqui, aqui, aqui e aqui). Com um misto de publicidade enganosa e complacência por quem licencia e/ou não fiscaliza o uso do espaço público, um grupo multinacional dispõe de pontos de recolha espalhados por vários países do mundo, particularmente por aqueles onde haverá condições e predisposição da população para ajudar o outro, mais desfavorecido. Vale a pena ler os artigos na íntegra e atentar nos sublinhados do excerto que aqui deixo.

“Estão no meio da rua, à saída do supermercado, frente a uma igreja ou ao lado de um ecoponto. São caixas enormes onde qualquer pessoa pode deixar roupa usada, que já não faz falta e ocupa as gavetas lá de casa. (…) a imagem com uma menina que parece ter sido fotografada num país africano, pobre, incita o transeunte a doar roupas usadas para ajudar o terceiro mundo.

Mas não é verdade. A roupa que está dentro dessas caixas é depois tratada por voluntários, escolhida, prensada e embalada e… vendida. [Na Califórnia, o Teachers Group] conseguiu mais dinheiro, com a venda das roupas, do que o Exército de Salvação, uma instituição com décadas nos Estados Unidos, que usa o dinheiro para ajudar pessoas desfavorecidas. (…)

Michael Durham, o jornalista inglês que há vários anos investiga os negócios da TVIND, explicou ao PortugalDiário como funciona a estratégia do Teachers Group: o objectivo é vender roupas para obter dinheiro para o TG, o grupo de líderes da TVIND. A roupa é vendida para várias companhias, da própria organização, sedeadas em paraísos fiscais. O lucro é, assim, não declarado e o dinheiro vai parar a uma conta off-shore, em locais como as ilhas Caimão.

Mas além da evasão fiscal e fraude – cujos processos correm nos tribunais dinamarqueses – a venda de roupa tem efeitos mais perversos. Quando vendida em países africanos, como Angola e Moçambique, a preços baixos – recorde-se que os voluntários são mão-de-obra barata – acabam por arruinar os mercados têxteis incipientes nesses países.”

Tagged under:

2 Comentários

  • Mariana Alencar L GarciaResponder

    Esse caso me lembrou um recente boato contra um evento anual chamado “Criança Esperança” da Rede Globo de Televisão ( a maior rede do Brasil). Circulou pela internet que a Globo, se beneficiava do Criança Esperança para deduzirr em seu Imposto de Renda como “caridade”. Uma caridade de milhões de reais que por outro lado compensava seus impostos com o governo.As doações para o criança esperança são feitas por pessoas comuns via telefone. Nada foi provado mas… não é duvidoso. A caridade cega não compensa.

    Aproveitando, gostaria de te parabenizar pelos seus escritos! Achei seu blog por acaso e fazia tempo que eu não lia textos economicos tão leves e despretensiosos. É raro encontrar economistas que tenham mais assuntos além de investimentos em contratos off shore e bolsa de valores.

    Abraço,

    Mariana Garcia
    São Paulo

  • Rui MCBResponder

    Obrigado pelo incentivo Mariana. Valeu 😉

Deixe um comentário

O seu email não vai ser publicado.