Soluções para a Crise segundo Martin Wolf

Soluções para a Crise? O articulista do Financial Times, Martin Wolf, publicou recentemente a peça “Radical cures for unusual economic ills” onde depois de muito brevemente recordar o diagnóstico do estado da arte da economia mundial e europeia em particular, na sequência da crise financeria internacional, e depois de enunciar como as políticas implementadas têm fracassado em enfrentar os problemas crónicos, faz a defesa da implementação de medidas não ortodoxas (ou mesmo completamente contra-intuitivas) para enfrentar os próximos anos que ameaçam continuar a ser de insuficiência crónica de procura a nível mundial.

Uma das respostas que avança estaria na linha do que descrevemos no artigo “E se o Estado proibisse a banca comercial de criar moeda?” e que para já recomendaria para o Japão como forma de resolver o problema da dívida acumulada sem um haircut direto sobre os credores (basicamente monetizar a dívida e retirar o poder de criação de moeda a bancos que provaram ser irresponsáveis para o fazer), outras , eventualmente complementares às que levariam ao perdão/monetização da dívida – passam por enfrentar a escassez crónica de procura resolvendo a impossibilidade de simultaneamente desalavancar os setores endividados sem com isso (via esmagamento dos salários, desemprego, etc) anular qualquer esperança de recuperação da procura.

Depois de sublinhar que o modelo mercantilista de aposta nas exportações até poder ser viável para uma pequena economia aberta, Wolf sublinha que não é praticável para grandes economias de forma duradoura, em particular num cenário de anemia crónica da procura mundial. O que fazer?

Martin Wolf defende que terá de haver um forte estímulo ao consumo (trabalho), ao investimento e à inovação e uma penalização suficiente à poupança. No fundo decretar que este é o tempo para ser cigarra e para penalizar a formiga (na acepção de que aforrar dinheiro não é uma opção feliz). Há um excesso de amealhamento e uma escassez de procura que está a constranger também de forma crónica a própria oferta (produção).

É aliás na dualidade de por um lado tentar injetar capital na economia via Banco Central (estimulando o retorno do mercado de capitais que passam assi ma ser mais atraentes) e por outro aumentar impostos sobre o consumo  que Wolf encontra algumas das razões para o fracasso da política de quantitative easing do Japão – a Abenomics. Algo que provavelmente se pode generalizar a outras economias de forma até mais gritante, em particular, aqueles onde nem sequer houve qualquer forma de quantitative easing. A falha crucial é o estimulo continuado à poupança não produtiva (nem se consome, nem se investe em sectores produtivos) estando quando muito a gerar novas bolhas nos mercados virtuais da finança e, quem sabe, a alimentar a deflação. E entretanto, sem audácia para fazer o que não vem nos livros, a sucessão de políticas falhadas progride, com o nível de endividamento mundial (fora do sector financeiro) a continuar com tendência claramente ascendente, o rendimento a chegar aos trabalhadores em queda, a precaridade no emprego em alta, e as razões induzidas pelo política económica a juntarem-se às estruturais (como o envelhecimento populacional) para deprimir a procura e a oferta sem um equilíbrio à vista.

Rui Manuel Cerdeira Branco

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