O FMI e a mosca sem asas com problemas de audição

Talvez já conheça a anedota do investigador que fazia uma tese sobre a mosca da fruta.  Estudava-lhe os sentidos e submetia-a a experiências. Capturada uma mosca e pediu-lhe que voasse. Ela voou. Na fase dois da experiência arrancou-lhe uma asa e pediu-lhe que voasse. E ela, a custo, voou. Na última fase arrancou-lhe a asa remanescente e pediu-lhe voasse. Sem sucesso, resolveu gritar “Voa!” mas o inseto recusou-se a fazê-lo. Conclui o investigador que as moscas da fruta, depois de removidas as asas passavam a apresentar uma condição bizarra: perdiam a audição. Devo confessar que esta anedota me vem à memória várias vezes quando leio e ouço conclusões da troika, do FMI e defensores do caminho único para sairmos da crise. Se só há um caminho, então não há caminho nenhum pois por mais aparelhos de reforço da audição que nos ponham nas orelhas, nunca voaremos, sem asas.

O FMI é claro a constatar o óbvio e a pedir o impossível. Apesar de alguns elogios no sentido de confirmar que temos feito um esforço notório, as coisas não estão a correr bem e enfrentamos grandes ameaças pela frente.

Desmontando frases feitasA dívida pública continua a aumentar – a subida inusitada dos juros depois do “fim” declarado da solidariedade europeia em 2010 e meses subsequentes, só foi parcialmente mitigado pelo empenhamento do BCE -, o desemprego continua em níveis muito elevados, o aumento mais recente das exportações pode ter-se baseado em fatores não repetíveis (maior capacidade de refinação de combustíveis e aumento singular do turismo), as importações podem vir a aumentar dentro em breve como resposta a uma substituição da poupança pelo consumo dos privados, o investimento disponível para reforçar a capacidade produtiva  do país declina continuamente e por aí fora.

O FMI identifica ainda uma situação de fragilidade perante choques externos, refere levemente que vamos continuar a ter de contar com o empenhamento dos nossos parceiros e tem repetido que há ajustamento que tem de ser feito, também (de sentido oposto) nos países excedentários (e credores). Mas hoje, depois de fazer o diagnóstico das ameaças e de atestar o fracasso das políticas seguidas apresenta a sua solução, descreve o nosso futuro.

Sim, reduzimos o número de funcionários públicos em 8%, muito acima do compromisso que tínhamos com a troika, mas perante o fracasso da austeridade expansionista, perante a perda de recursos, de capacidade instalada, e perante a cristalização de desvantagens concorrenciais no mercado europeu, temos de reduzir muito mais os gastos públicos. Ou seja, discutir se os cortes nas pensões e salários são definitivos ou provisórios é conversa para boi dormir: outros cortes terão de ser feitos e, provavelmente, maiores. Mas há mais…

As empresas e famílias, também têm de desalavancar mais e mais depressa, ou seja, pagar mais crédito passado, canalizando toda e qualquer disponibilidade financeira que venham a obter (pelas receitas das exportações ou vendendo anéis, por exemplo) para reduzir a dívida. Isto ameaçará o crescimento económico, dizem, mas tem de ser feito. Mas ha mais…

É que ao mesmo tempo, para conseguirmos pagar a dívida, a economia tem de crescer e bem, muito mais do que tem crescido nos últimos 20 anos! Ou sejam, teremos de crescer para contrabalançar o efeito recessivo da desalavancagem acelerada e crescer tanto quanto conseguimos crescer nos nossos momentos de maior expansão, na prática, somando estes dois pressupostos, temos que crescer como nunca o fizemos antes. Mas há mais…

Para crescer, é fundamental que as empresas recuperem mais competitividade e, fundamentalmente, é preciso encontrar investimento, muito mais investimento – o tal que não para de cair a pique.

hand pulling money out of surprised businessman's pocketComo se vê, um milagre não bastará. Uma pessoa sem juízo não conseguiria dizer algo mais desconcertante e louco do que isto que acabámos de ler (e escrever). Ou melhor, o relato é lógico, a sua concretização é impossível. O FMI faz o diagnóstico e traça o que teríamos de fazer para conseguir. Só lhe faltou um parágrafo final onde afirmasse algo como “Como se sabe, o que se exige a Portugal é impossível de alcançar, viola as leis mais elementares da racionalidade e da economia, traduzindo-se numa autêntica quadratura do círculo que nunca nenhuma economia conseguiu protagonizar ou algum dia conseguirá.”

Recapitulando. Como isto correu muito mal, não é hoje certo que o caminho de consolidação percorrido – o tal muito elogiado – represente sequer metade do que tem de ser feito. Precisamos fazer uma carrada de coisas que vão deprimir muito mais a nossa economia, mas estamos obrigados, é mesmo o nosso dever, crescer muito mais do que nos últimos anos. Só assim poderemos pagar o que devemos, ainda que assim não consigamos pagar o que devemos. É o nonsense perfeito.

Infelizmente, o crescimento não se decreta e muito do que o inibe está enraizado na própria Zona Euro e nos desequilíbrios que ela estimulou e que hoje alimenta sem que se vislumbre qualquer mudança… Também isso o FMI se esquece de referir ou o faz de forma muito envergonhada.

EuropaSó para garantir que perceberam: os recursos que consigamos libertar devem pagar a dívida colossal mas devem também sustentar investimento para conseguirmos exportar. Note-se também que é muito complicado competir com empresas da mesma Zona Euro, empresas que recebem todo o crédito que quiserem a taxas próximas de zero (historicamente baixa, muito à conta da desgraça alheia) e, note-se, que temos de as superar, conquistar-lhes quota de mercado e gerar excedentes superiores.

Era bom que nós por cá (ou menos os nossos líderes políticos e de caminho todos os portugueses) percebessemos a insanidade de tudo isto e a impossibilidade de esperar qualquer desfecho “limpo” deste rumo. Mais cedo ou mais tarde teremos de reconhecer que batemos na parede e que os nossos parceiros só se oferecem para nos empurrar mais um bocadinho, esborrachando-nos com afinco.  Cumprimos com a dieta, aceitamos até que no futuro não se repitam muitas asneiras do passado (partilhadas por credores e devedores, já agora) e aceitámos até que nos arrancassem as asas. Só que agora insistem, aumentando sucessivamente os decibéis, que voemos. Somos mesmo uns trastes, não passamos do chão ou, quando muito, apenas conseguimos continuar a escavar o buraco.

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