Ser orgulhoso pode-lhe sair muito caro às suas finanças (disposition effect)

O conceito não é novo para iniciados, mas para um leigo e no seio de um país onde prospera a iliteracia financeira, não se perde nada em discorrer por uns instantes sobre a não linearidade da racionalidade perante, por exemplo, um investimento.

Mas que raio é isso da não linearidade da racionalidade? Bom, a expressão remete para “cortar a direito”, para o bem e para o mal (algo que exigiria a linearidade). No fundo a “não linearidade” quer dizer que não tem de haver simetria de ação por parte de uma pessoa quando esteja perante uma situação simétrica a outra que tenha vivido. O seu pensamento não tem de ser lógico, pode ser total ou parcialmente condicionado por perceções que vão além do que seria estritamente “racional”.

Trocando por miúdos, imagine que  investiu numa ação e que ela se valorizou 50% em três meses. E imagine que se põe a pensar e que conclui “deixa-me cá vender enquanto estou a ganhar um bom dinheiro antes que isto comece a descambar e depois fique para aqui pesaroso com o que não ganhei“.

Agora imagine que, algum tempo depois, numa conjuntura económica parecida, compra outra ação e que, volvidos três meses ela se desvalorizou 50%. E imagine que se põe a pensar e que conclui que “deixa-me cá aguentar isto mais uns tempos a ver se o preço da ação sobe e se consigo sair do negócio sem ter de assumir uma perda de 50%.

Os iniciados em economia poderiam neste momento referir o conceito (e concretização) de uma curva de utilidade mas não vamos por aí, até porque são terrenos minados, precisamente por um dos ramos da economia (a economia comportamental) que vai disputando a exequibilidade de se definir matematicamente tal coisa (entre outros).

Regressemos ao texto corrido sobre o tema fulcral e ao nosso exemplo. Em larga medida, as situações exemplificadas são simétricas (ganho de 50% versus perda de 50%) contudo a atitude do investidor não o é, se fosse deveria ter vendido tanto quando ganhava 50% como quanto perdia os mesmos 50%. Ou seja, acharia tão provável subidas adicionais em alta quanto descidas adicionais em baixa e, para um mesmo nível de aversão ao risco, agiria de forma equiparável.

Sucede que este comportamento enviesado, onde é muito mais difícil reconhecer uma perda (mesmo que isso possa acarretar uma agravamento da perda) do que esperar mais um pouco para obter um ganho adicional, quando já estamos “sentados” em cima de um belo ganho potencial, é real e tem sido demonstrado em vários mercados, merecendo inclusive um nome científico “disposition effect“.

Um investidor experimentado pode defender-se destes impulsos ou viés do orgulho (expressão inventada agora, só para arreliar), por exemplo, definindo à partida, quando “entra” num título/ação, que, caso ele caia abaixo de uma determinada percentagem do valor do investimento inicial, ele é automaticamente vendido no mercado (uso de uma opção stop-loss). Já um investidor mais guiado pelo fé e pela emoção pode eternizar e agravar sucessivamente as perdas, adiando a venda.

Posto isto, como é consigo? Tem a certeza que é um ser racional quando gere os seus investimentos financeiros?

Quer saber mais sobre o assunto? Pesquise dispostion effect no motor de busca e, por exemplo, passe por aqui para ver outros tipos de:

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