Autossuficiência alimentar: e se de repente deixássemos de poder importar comida?

Os dados hoje divulgados pelo INE estão algo datados, compreendem o período de 2006 a 2010 (e 2011 para o comércio internacional) e, como tal, passam um pouco ao lado do forte impacto que a crise está a ter, ainda assim, permitem saber, em condições normais (ou quase) qual era o nosso grau de autossuficiêcia alimentar. Ou seja, qual a percentagem de alimentos que estamos a produzir internamente face às necessidades habituais da população?

Segundo o INE, entre 2006 e 2010 o valor médio para o grau de autossuficiência alimentar foi de 81%. Assim sendo se, por hipótese, deixássemos de ter acesso aos mercados externos de alimentos – algo que, em algum grau poderia suceder no caso de um colapso desordenado da zona euro, ou se uma saída extemporânea e mal planeada de Portugal – conseguiriamos produzir internamente 81% daquilo que consumimos.

Este exercício é excessivamente grosseiro, note-se. Desde logo porque, um bloqueio no acesso aos mercados alimentares (por exemplo por falta de crédito ou capital credível ou mesmo devido a uma ano agrícola mau nos nossos mercados abastecedores) também poderia implicar dificuldade de acesso a consumos intermédios necessários à produção local de bens alimentares e, por outro lado (com impacto inverso), porque não é serto que o nível de consumo tomado por referência não possa descer significativamente sem que com isso se coloque em perigo o provimento de uma alimentação bastante para a população.

Será particularmente curioso averiguar que números nos apresentará o INE para 2011 e 2012, (há dados para 2011 divulgados  e pouco abonatórios em termos de taxa de cobertura das exportações pelas importações). Recorde-se que estes foram anos de forte contenção nas importações e de algum (pouco) incentivo à substituição de importações e/ou promoção de exportações. Para que os números que hão-de vir tenham uma leitura especialmente útil seria também necessário que existisse em Portugal uma estatística sobre a pobreza absoluta que nos permitisse acompanhar até que ponto há mais ou menos portugueses a passar fome ou alguma medida de carência alimentar crónica em Portugal.

Sublinhe-se que a definição habitual de pobreza absoluta passa pelo estabelecimento de uma cesta básica alimentar (o Instituto Ricardo Jorge já o fez em tempos…) e do confronto do seu custo com as disponibilidades financeiras de cada agregado familiar (o INE conhece profundamente os preços dos produtos por via da sua experiência com o cálculo da inflação, entre outros), mas vai tardando encarar de forma sistemática e continuada a estudo deste indicador particularmente significativo na atual conjuntura.

Uma nota final de um excerto do INE: “Portugal é autossuficiente em cerveja e água mineral natural, estando dependente do exterior no que diz respeito a outras bebidas não alcoólicas (inclui refrigerantes) e sobretudo em relação a outras bebidas alcoólicas.

Mais detalhes sobre a autossuficiência alimentar no sítio do INE.

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