E se desta vez for a sério: mais tecnologia, mais produção, muito menos emprego

Mais tecnologia, mais produção, muito menos emprego?

O tema não é novo, ressurge a cada crise que produz elevados níveis de desemprego, mas o seu rebate como uma falácia desta vez parece ser mais difícil, até porque há evidencia de que o problema não é conjuntural (ou seja, não está a ser gerado apenas pela atual crise). Podemos estar a atravessar, há algumas décadas, um “paradoxo” económico: mais produção, mais produtividade, mais tecnologia e cada vez menos emprego.

É por exemplo o que se defende, para a economia Norte Americana, no artigo “The Shrinking Lump of Labor” no Andrew McFee Blog. No artigo advoga-se, por exemplo, que o regresso aos EUA de algumas actividades produtivas que se haviam deslocalizado na China não está a gerar o esperado incremento de postos de trabalho isto porque entre o momento da deslocalização inicial e o do regresso das empresas, o processo produtivo automatizou-se de tal ordem que as empresas, tendo regressado, carecem apenas de uma fração dos empregados de que necessitavam na própria China.

Primeiro aconteceu na agricultura, depois na indústria e finalmente nos serviços. Muito mais valor acrescentado foi gerado tendo que se recorrer a cada vez menos pessoas e, consequentemente, havendo cada vez menos salários para distribuir. Robotização mais complexa, inteligência artificial, etc tudo produtos do engenho humano que contribui para novos ganhos de produtividade a cada novo dia, contribuindo igualmente para a inutilização de cada vez mais empregados.

No passado, advogava-se frequentemente que o que acontecia, perante um surto de inovação tecnológica, era uma desadequação da formação de uma parte dos trabalhadores às novas exigências, surgindo contudo novos postos de trabalho na nova tecnologia. O ajustamento poderia ser algo doloroso ou pelo menos moroso mas ocorreria. Agora é particularmente difícil imaginar de onde virão esses novos trabalhos. Conseguimos imaginar que a complexidade tecnológica e o saber exigido a cada trabalhador do futuro não pararão de crescer mas não conseguimos antever novos empregos dessa índole na quantidade suficiente para substituir minimamente o que se perde.

Se a evidência se acumular internacionalmente, talvez seja a hora de repensar o próprio papel do ser humano e o mecanismo que temos em vigor para se poder aceder à produção gerada que, para a grande maioria da população, está umbilicalmente associada à possibilidade de ter um emprego.

E se pela magia tecnológica quase ninguém tivesse que trabalhar? E se reduzimos a população ao contingente dos que têm emprego terminando, no limite, na integral robotização do planeta? E se encontrarmos forma de concretizar o sonho do ócio criativo tão caro aos filósofos da antiguidade? E se estabelecemos novas fronteiras noutros mundos, na eterna procura do desconhecido que a espaços nos tem salvo e definido? E se mortos de tédio, qual preso na sua grelha de auto-avaliação utilitarista, nos dedicarmos à birra cruel dos putos que em adultos pode acabar em tragédia global?

Exageramos nas conjeturas? Talvez. Deixemos o tema, para já, para quem tem tempo para ele (os filósofos não são de todo inúteis, ainda que até aí já se possa idealizar um filosofo cibernético dotado de inteligência artificial…).

Voltemos ao problema da falta de emprego por via da sua anulação tecnológica. Como definir então quem teria acesso ao quê? O próprio sentido do dinheiro poderia perder a sua utilidade. Sem escassez real, o valor dos bens e serviços (condicionar o seu acesso), só poderia ser imposta por moralismo, convenção… Em algum medida é já o que sucede hoje em dia, se pensarmos nos gritantes desequilíbrios económicos à escala planetária, perante alguns bens e serviços.

Bom, mas até esse dia em que predomine a abundância para todos em relação a quase tudo o que é necessário, o que talvez mereça genuína preocupação é que poderemos não estar atentos para a necessidade de reorganização progressiva da sociedade e das formas de atribuição de recursos vitais à população marginalizada do sistema tradicional, imposta por essa mesma transição. Não só o genuíno desempregado dedicado pode ser impossível de reconverter à nova tecnologia como o novo, inteligente e empenhado estudante pode ficar de fora por insuficiência permanente de vagas na nova economia. Tal desatenção pode ela própria destruir muito daquilo que, enquanto humanidade, se conquistou. É só pensar que poderemos estar a gerir e julgar um mundo com base em premissas dignas de uma antiga economia cada vez mais distante da realidade.

Eis uma responsabilidade de estudo e vigilância a que os senhores economistas, políticos, filósofos e não só, não devem escusar-se.

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1 Comentar...

  • bitolaResponder

    Mas há um erro seu ERRE CÊ BÊ, a agricultura continua dependente de muita mão de obra para a maioria das culturas

    a mecanização só é possível nas culturas arvenses (anuais) e nem em todas
    o mesmo para a silvicultura
    para a pecuária

    só que em termos de geração de valor
    são actividades muito dependentes de uma escassez que por enquanto ainda não existe

    mas potencialmente numa europa excedentária em termos alimentares é uma solução
    de miséria mas uma solução…

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