E o pior cartão de crédito do mercado é…

Não, não temos uma academia de especialista em cartões de crédito para atribuírem o “óscar” ao melhor e ao pior, mas temos olhos para perceber quando, em regra, vemos um negócio duvidoso para o cliente bancário. Não passa de uma opinião: cá vai

Hoje deparei com uma nova oferta do Santader-Totta que inunda boa parte dos Mupis (Mobiliário Urbano para Informação) da cidade de Lisboa e de tão chocante a política comercial implícita decidi-me à crítica. Falo do Cartão de Crédito 5%. O que li no painel publicitário e vi na net é todo um programa que merece reflexão.

Por um lado, cativa-se o cliente com a oferta de um desconto de 5%: devolve-se mensalmente 5% sobre o valor das compras via abatimento ao montante em dívida junto do cartão. Se não houver montante em dívida? Isso é uma impossibilidade, é que, por outro, só se atribui o desconto SE o cliente fraccionar o pagamento do crédito em 12 meses a uma módica taxa de juro ultrapassa os 23% ao ano– eis as letras pequeninas conforme se pode ler na net e no cartaz: TAEG 23,23%; Exemplo para uma utilização de crédito no valor de 2.500€, com prazo de reembolso de 12 meses e TAN de 19,8%.”

Finalmente, e esta é a cereja que me levou a escrever o texto que lêem: penaliza-se com uma comissão 3% sobre o montante em dívida qualquer tentativa de amortização antecipada da dívida que seja superior a 50% do montante em dívida, concretamente: “O pagamento mensal superior a 50% do saldo em dívida está sujeito a uma comissão de 3% sobre o valor amortizado antecipadamente.”

Andando as taxas de juro passívas abaixo dos 2%, cobrar mais de 23% sobre crédito parece-me agiotagem pura. Poderá o leitor dizer que se trata do prémio de risco de incumprimento. Pode até ser, mas emprestar dinheiro com um cenário de incumprimento à partida que justifique tal taxa parece-me, mais uma vez, negócio de agiota. Vale a pena passar pela página na net para ver os requintes que hoje encontramos nos cartões de crédito: o maior mimo é a possibilidade de ajudar na luta contra a fome. Como? Dando dinheiro do seu bolso a quem precisa. Qual o papel do Cartão de crédito no meio disto? Pois…

O que mais me choca é que apesar da taxa de juro brutal, ainda há a tal penalização sobre a amortização antecipada. Aqui proponho intervenção directa do Estado. Algo muito singelo: proibir qualquer taxa, comissão ou encargo adicional em qualquer tipo de contrato de concessão de crédito associado ao acto de pagamento antecipado da dívida.

Quem quiser emprestar dinheiro que incorpore esse custo, se assim o entender (e se ele de facto existir!), no contrato à cabeça. Criar cláusulas de promoção à manutenção da relação de endividamento adicionais às ditadas pelo interesse legítimo do cliente em ir pagando a prestações (e às potenciadas por todo o condicionamento publicitário existente) parece-me suficientemente danoso em termos sociais para ser banido como prática comercial ainda que teoricamente possa implicar um encarecimento marginal do crédito. Bem sei que um cliente bancário com mestrado em finanças não precisaria de tais cautelas e intervencionismo do Estado, mas vejo poucos clientes bancários com esse perfil neste país.

Esta deveria ser uma lição a retirar da corrente crise: precisamos de inclinar o prato da balança no sentido de valorizar o auto-financiamento, no sentido de reforçar a sustentatibilidade dos orçamentos e dos próprios projectos de investimento (uma família também é um “projecto de investimento”) e não o contrário. No fundo, contagiar a todo o crédito aquilo que se tem vindo a fazer com o crédito à habitação.

Uma última palavra sobre o Santader-Totta: serviu de exemplo para comentar práticas correntes e generalizadas (apenas por culpa de me entrar pelo olhos a dentro no caminho rumo ao trabalho). Com grande grau de certeza, este artigo manteria a sua coerência se se trocasse o nome da instituição financeira por virtualmente qualquer outra da praça lusitana (and beyond).

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12 Comentários

  • Pingback:amartires

  • PatríciaResponder

    Penso que o artigo demonstra uma ENORME ignorância por parte de quem o publica. O cartão 5% oferece mais ao cliente do que a grande maioria (e não digo totalidade porque não os conheço todos) dos cartões do mercado. Senão repare (eu faço-lhe as contas…): o cartão não tem qualquer anuidade desde que utilizado em 600€/ano; tem 5% de desconto sobre 50% do montante utilizado (em 1000€ utilizados tem 25€ de “bónus”) e sobre os restantes 50% paga 3% mas recebe 5%, ou seja, paga 15€, mas recebe 25€ – resultado: recebeu um bónus líquido de 35€ sem quaisquer encargos… visto assim nem parece tão mau, correto???
    Depois, utilizar o nome da instituição em questão (que ano após ano recebe o prémio de “o melhor banco a operar em Portugal”) para a “vandalizar” desta meneira é vergonhoso. Practicamente todos os cartões de crédito do mercado – excepto os que vieram atrás do cartão light (também lançado pelo Grupo Santander), que foi o PRIMEIRO cartão de crédito do mercado com taxas aceitáveis (13,8%) – têm taxas de juro similares às praticadas no cartão 5%, e nem por isso eles oferecem 5% de desconto em TODAS as compras. Estarei assim tão errada?
    Da próxima vez que passear pela rua com a sua foice às costas e embrulhado na sua bela bandeira encarnada, dê-se ao trabalho de se informar acerca do que fala.

  • RuiMCBResponder

    Patrícia:
    Essa da foice às costas já me fez rebolara a rir. Mas olhe que até fiquei a gostar mais de quem anda mesmo com ese instrumental às costas. Aliás, cá vai homenagem:
    “De pé, ó vitimas da fome!
    De pé, famélicos da terra!”

    Acho que o artigo é bastante explícito, a informação pode ser confirmada in loco no sítio do banco logo os restantes leitores podem avaliar o que qualifica como vandalização. Note que não lhe chamo o pior cartão de crédito (até porque, como sublinho, não tenho tempo nem disposição para fazer uma análise exaustiva), acho contudo que é um exemplo de muito mau gosto dado por uma instituição financeira no contexto actual. A crítica fundamental não é rebatida: o fundamental é agarrar o crédito e faze-lo durar dando os piores sinais possíveis às pessoas menos esclarecidas.
    Eu tenho um cartão de crédito (da CGD) do qual não pago anuidade (bastando para isso pagar as compras de mês no supermercado) e que me devolve até 3% das compras feitas (dependente do valor utilizado) sem que me exijam pagamentos fraccionados, nem imponham penalizações se quiser livra-me do crédito de livre vontade, a qualquer momento. A mim de facto, pouco me interesse a taxa de juro cobrada pelo banco, pois não uso o crédito além dos 45 dias gratuitos…
    Se o Santander eliminar a cláusula de penalização de 3% a quem queira pagar o que deve fico com muito melhor opinião do produto. Até lá, a minha modesta opinião é de que estamos a precisar de seguir o exemplo que tivemos recentemente no crédito à habitação: forçar que as taxas aplicáveis como penalização de amortização de crédito sejam nulas ou quase (0,5% no crédito à habitação). Como defendi, os bancos continuam livres de aumentar a taxa de juro (ainda que tenham de encaixar acusações de agiotagem e tal) mas colocam o preço do produto no sítio adequado, demitindo-se de promover políticas anti-poupança em que, na prática, se constituem as penalizações que lembram o que os escravos tinham de pagar quando lhes era permitido adquirirem financeiramente o direito à liberdade.
    “Crime de rico a lei cobre,
    O Estado esmaga o oprimido.
    Não há direitos para o pobre,
    Ao rico tudo é permitido.
    À opressão não mais sujeitos!
    Somos iguais todos os seres.
    Não mais deveres sem direitos,
    Não mais direitos sem deveres!”

    Se a Patrícia tiver exemplos concretos de cartões de crédito bem piores que este não hesite em chamar os bois pelos nomes e em indicar as fontes. Fazer circular a informação entre leigos é um dos objectivos desta página.
    Volte sempre.

  • Pingback:Adufe sans frontiers | Semear, regar, ceifar.

  • FranciscoResponder

    Intriga-me esta ideia de os cartões de crédito permitirem devolver uma percentagem do valor das compras ao cliente. Como é que o banco faz este dinheiro? Suponho que não seja com os juros do crédito nem com a anuidade.

  • RuiMCBResponder

    Francisco,
    Eu diria que faz dinheiro com tudo um pouco. desde logo faz sempre com a comissão que cobra aos lojistas (e indirectamente ao dono do cartão) por cada utilização do mesmo. Num número não desprezível de clientes fará dinheiro com os juros e também há-de cair algum noutras comissões especiais associadas a pagamentos no estrangeiro, cash advance, etc.
    Mas um banqueiro que explique melhor…

  • FranciscoResponder

    Thnx.
    É mais diversificado do que pensava.
    Já há algum tempo que tenho a ideia que estamos todos a pagar isto; por não se diferenciar estes tipos de pagamentos na hora da compra.

  • Pingback:Crédito ao consumo com novas regras: taxa de juro máxima e limitações às penalizações por amortização | Economia & Finanças

  • JOSE LUISResponder

    Impressionante a impunidade com que actuam a generalidade da generalidade das instituiçoes financeiras, com a passividade dos nossos organismos oficiais…
    Entao as pessoas nao se revoltam??? Claro que se revoltam…. Sera o fim do “SISTEMA” .
    Sem ordem, nao…Parem de deixar “ROUBAR”…
    JL

  • JOSE LUISResponder

    Impressionante a impunidade com que actuam a generalidade das instituiçoes financeiras, com a passividade dos nossos organismos oficiais…
    Entao as pessoas nao se revoltam??? Claro que se revoltam…. Sera o fim do “SISTEMA” .
    Sem ordem, nao…Parem de deixar “ROUBAR”…
    JL

  • Pingback:Anónimo

  • tugabeatResponder

    Este cartão tem pago muita coisa do que gasto e desde 2009 que já fiz um lucro absurdo, que nem em contas a prazo consigo.
    Que ninguém use este cartão. Sobra mais para quem o tem…

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