O repugnante venceu

Euro

Opinião

Depois de mais uma peça em vários atos com as já clássicas noitadas e os prolongamentos para dias seguintes, a União Europeia regressou ao complicadíssimo processo de decisão que, bom, sempre a caracterizou. Mais ainda em momentos de crise onde algo de diferente era necessário.  Desta vez, como sempre, todos celebraram mas no fim.

Mas fora o foguetório ridículo que não convence ninguém, as probabilidades venceram e nada de muito diferente surgiu como ferramenta para enfrentar a maior crise económica das nossas vidas que se avizinha.

  1. Uns trocos sem condicionalidade mas só para equipamentos médicos e afins. Uma espécie de caridadezinha para os pobrezinhos – sublinho os diminutivos.
  2.  O exíguo orçamento comunitário que verá as suas verbas desviadas para enfrentar a crise mas não as verá aumentadas.
  3. Umas vãs e vagas promessas para um amanhã que nunca cantará e pouco mais.

Quem esperava que desta vez, pela transversalidade da crise (mais teórica do que real quando pensarmos na intensidade diferenciada com que afetará cada país), pela ausência de “culpa”, haveria um conjunto de argumentos moralistas, estafados e hipocritamente simplistas que não entrariam na discussão, enganou-se.

Quem acredita que o ser humano na sua vertente económica é racional, creio que também teve mais provas que quão simplista é esse aforismo.

É impossível alguém com dois dedos de testa não perceber que desta vez, mais do que ontem, precisamos de articular ações e recursos para conseguirmos minimizar os sacrifícios e projetar uma recuperação rápida no espaço europeu.

Quem vive neste mundo sem mini-agendas, sabe quão intrincado é o processo de produção e a sustentabilidade económica de tantos processos de produção e comercialização. Sabe quão assustadoramente reais são as ameaças disruptivas que temos no horizonte interno (Itália, Hungria, Polónia, movimentos extremistas e integristas internos) e na vizinhança com agendas pouco interessantes para o nosso bem estar e do planeta (Turquia, Rússia, China).

Alguns até se lembrarão que pela primeira vez um país saiu da União Europeia num processo onde ainda está quase tudo por resolver.

Ainda assim, as questiúnculas de família, os azedumes seculares centrados em diferenças de personalidade coletiva, sobrepuseram-se ao interesse económico e à maximização do bem estar social de todos.

Dizem que há umas eleições para ganhar nos Países Baixos já para o ano e uma justa causa, algo bufona mas mais próxima da razão da península Itálica que não deram para conciliar, mas o problema central é mais vasto e real, estrutural.

A Europa carece dos pilares fundamentais para ser sustentável politicamente. Acelerou para alargamentos porque estes reforçavam o poder intrínseco do centro e o sentido de inexorabilidade no respeito pelo seu dictate. Mas hoje cavou mais um pouco a sua sepultura e aproximou de um triste e agoniante fim aquele que já foi o projeto político mais inspirador da humanidade.

Mas falemos dos frugais nortistas e dos relapsos  do sul enquanto os autoritários do leste e os nacionalistas do ocidente continuam a ganhar ascendente. A Europa lá lhes vai entregando de bandeja no colo dos cidadãos um imenso capital de queixa que saberão explorar quando a crise deixar de ser percebida e nos entrar pela casa adentro.

Na Europa continuaremos a discutir até que um dia se desmontará a barraca, se entrará num processo de “clarificação”, de separação das águas, de formação de blocos com uma diferença fundamental face ao passado. Nós, Europeus, seremos os joguetes nas mãos de outras superpotências e não mais os imperadores do nosso destino.

Uma ironia da história com reversão de papéis que não deixará de ser tão trágico quanto foi a história original. E para nós, ainda democratas e liberais, não será agradável.

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1 Comentário

  • Manuel Fernando Rodrigues da Silva Responder

    Tal como previsto, só há dinheiro (como ajuda financeira) para a parte da saúde pública. Existem verbas que estarão ao alcance dos países, mas debaixo das condições de crédito.
    E espera até eles saberem que a ministra da cultura vai gastar um milhão de euros num festival de música pela TV…

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