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INE, You Have a Problem!

INE, You Have a Problem!

O INE pelo terceiro mês consecutivo, em virtude das revisões que naturalmente tem de fazer às suas estimativas preliminares, afirma que a taxa de desemprego de junho está inalterada face ao mês anterior. Contudo, a taxa de desemprego que o próprio INE divulga está hoje nos 11,2% quando em março de 2016 estava nos 12,0% e não nos 11,2% como o mais crédulo poderia imaginar. Como pode então uma taxa que todos os meses é qualificada como estando inalterada face ao mês anterior ter passado de 12,0% para 11,2%? 

 

De onde vem o problema?

INE, You Have a Problem!

INE, You Have a Problem!

O problema resulta da mensagem que o INE passa mensalmente e que compara não o valor divulgado no mês anterior com a nova informação estimada no mês atual, mas compara antes um nova estimativa do valor do mês anterior com a nova informação estimada no mês atual.

 

Confuso? Vejamos em concreto.

A 30 de junho de 2016 o INE disse que a taxa de desemprego provisória relativa a maio de 2016 era de 11,6%.

A 28 de julho de 2016 o INE disse que a taxa de desemprego provisória relativa a junho de 2016 era de 11,2%.

Perante isto o que diria o leitor? A taxa de desemprego entre maio e junho aumentou, manteve-se inalterada ou desceu? Naturalmente diria que desceu. Desceu de 11,6% em maio para 11,2% em junho.

Mas então porque é que o INE diz que se mantém inalterada?

Porque o INE deitou para o lixo a estimativa que divulgou a 30 de junho de 2016 relativa a maio e calculou, a 28 de julho, uma nova estimativa (com mais informação) relativa maio e, surpresa! Essa estimativa já não é de 11,6% mas é de …11,2%! Ou seja, o mesmo valor que o INE, também a 28 de julho de 2016 prevê que seja a taxa de desemprego de junho.

Ora como a nova estimativa para maio e exatamente igual à primeira estimativa de junho o INE afirma que a taxa de desemprego se manteve inalterada nos 11,2%!

Isto é um problema no sentido do que gera na perceção pública. Basta ver o que os nossos jornalistas escreveram tendo por base a informação do INE. Com raríssima exceções a manchete foi “Taxa de desemprego manteve inalterada”.

Mas o problema é particularmente irritante porque já acontece há 3 (três) meses consecutivos. Na prática, há três meses consecutivos que as primeiras estimativas da taxa de desemprego que o INE estima são calculadas por excesso: estima sempre uma taxa de desemprego acima da que mais tarde vem a rever (na realidade isso acontece há quatro meses com o número de desempregados  e há três para o número de empregados estimados por defeito num momento inicial como o próprio INE indica na informação sobre revisões).

É por isto que quem só ler os jornais pode estar convencido que a taxa de desemprego está estagnada há três meses quando na realidade está a descer rapidamente fixando-se agora no valor mais baixo desde (e desculpem-nos as maiúsculas) NOVEMBRO DE 2009!

 

Para que servem as estimativas mensais?

O maior valor acrescentado das estimativas de curto prazo como esta do emprego e desemprego é dar um sinal das tendências e não tanto oferecer o valor absolutamente definitivo de um indicador.

A precisão da informação é geralmente incompatível com a frequência e rapidez com que é prestada pelo que temos de assumir essa troca e ter esse cuidado quando fazemos a leitura destes dados.

Contudo, quando a indicação dada é sistematicamente revista no mesmo sentido durante um período significativo de tempo, devemo-nos questionar se estamos a dar informação de qualidade para os decisores ou antes a introduzir ruído ou mesmo a enganar inadvertidamente o público.

E neste caso não estamos só a falar de estatística, estamos a falar precisamente de perceção pública. Ora quando há três meses o que a perceção pública vai interiorizando é uma informação errada (o desemprego está estagnado) e quando essa apreciação resultar de uma afirmação que vem da própria fonte  (ainda que seja potenciada por um grave problema de iliteracia dos nossos jornalistas), há trabalho de comunicação que tem de ser melhorado do lado da própria fonte.

 

INE, You Have a Problem!

O INE começou a divulgar dados mensais sobre emprego e desemprego em outubro de 2014. Já aqui fizemos várias críticas construtivas e lançámos vários alertas. Optámos até por analisar apenas os dados definitivos difundidos a cada mês ignorando a estimativa provisória, contudo nunca deixámos de ser clientes desta informação.

Hoje deixamos aqui novo alerta que fundamentamos após termos analisado com algum detalhe o que foi divulgado face ao que teria sido divulgado caso o INE abandonasse a difusão de uma estimativa provisória (que em parte prevê) e comparasse apenas dados definitivos, por natureza mais robustos.

A conclusão possível a que chegámos é a de que o INE alimenta as interpretações depressivas sobre a realidade, pelo menos neste momento histórico de evolução destes indicadores.

De facto, em virtude da mudança de tendência que, agora começa a ser inquestionável, terá acontecido nos últimos meses (com o desemprego a cair e o emprego a recuperar), o INE falhou em cinco dos seis últimos meses dando um sinal errado ao país. Nos cinco meses em que deu a indicação errada (face à que resultaria de comparar dados definitivos) em quatro deles foi mais pessimista do que aquilo que veio a ser a realidade. Em concreto, nos meses de fevereiro, abril, maio e junho.

E isto é preocupante pois promoveu uma real dissonância cognitiva entre aquilo que é uma taxa inalterada há três meses e aquilo que é, na realidade, a taxa de desemprego mais baixa desde novembro de 2009.

A metodologia usada para estimar o mês mais recente parece ser particularmente vulnerável a mudanças de tendência e assim sendo deixamos a pergunta: para quê divulgar?

Ou se arranja melhor metodologia ou, insistindo na difusão, se melhora significativamente a qualidade da comunicação. A informação mais relevante nunca será o que aconteceu entre uma estimativa inevitavelmente grosseira e a nova estimativa que substitui a estimativa grosseira calculada no mês anterior se isso fizer perder o sentido da evolução do indicador em termos conjunturais.

O que se disse aqui para a taxa de desemprego é também válido para os dados do emprego.

Além do quadro aqui presente (mais em cima) deixamos um outro com a base de dados utilizada. Se detetar algum erro não hesite em contactar-nos.

Desemprego Ficheiro de Trabalho INE 2

 

Mais informação:

Acompanhe aqui as atualizações sobre os dados estatísticos nacionais.

 

O texto foi ligeiramente revisto para facilitar a leitura e corrigir algumas gralhas.

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3 Comentários

  • Adérito BandeiraResponder

    Reconheço qualidade e interesse na informação que prestam, mas, de uma forma crescente, têm vindo a assumir um papel de defesa e promoção do atual governo. Por este andar ainda acabam por ser rotulados de orgão oficioso da giringonça.

    • Economia e FinançasResponder

      Obrigado pela reação e pela opinião mas procurámos manter a questão estritamente no plano técnico de informativo. Creio que o nosso histórico -a é quanto a estas estatísticas mensais do emprego/desemprego – demonstram que não é nenhuma preocupação político-partidária que nos move. É ver no histórico 🙂

  • PedroResponder

    era tudo mais simples se só lidassem com dados concretos. isto é típico dos portugueses. São fofoqueiros e ansiosos e baseiam-se em invenções e depois já não ligam aos factos. É como os seguidores das estatísticas que não sabem que no terreno há casos reais e particulares.

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