Banco português “oferece” €5000 de crédito pré-aprovado a desempregado

Era uma vez um grande banco português que em novembro de 2012 resolve enviar uma carta, aparentemente a todos os seus clientes que partilham um determinado serviço standard (em concreto, o serviço BES 360º).

Até aqui nada de particularmente chocante não fosse o facto de a carta (ver aqui na sua versão genérica) se tratar de uma “oferta” de crédito pré-aprovdo, não solicitada pelos clientes mas antes “oferecida” de forma pro-ativa pelo banco e de o relato que nos chega de um cliente do BES (surpreeendido pela missiva), indiciar que este banco não cuidou de confrontar pelo menos alguns dados financeiros e económicos basilares sobre os clientes subscritores do tal serviço aos quais resolveu enviar a oferta.

É aqui que as coisas se começam a complicar, particularmente quando sabemos que clientes, outrora bons de contas, aforradores comprovados, caíram entretanto, e de há vários meses, no desemprego, situação conhecida da instituição financeira. Ainda assim, perante um perfil de aforro e de risco substanciamente diverso do passado, recebem, por exemplo, €5000 de crédito pré-aprovado em época natalícia para fazer face às despesas da época, ou nas palavras da instituição “naquela altura do ano em que as despesas parecem multiplicar-se“.

Assim, a troco de uma “TAEG de 11,3% para um pedido de €5.000,00 e montante de financiamento de €5.380,67 a 60 meses” o cliente desempregado poderá, graças ao seu atencioso banco, entre outros “até adiantar algumas compras para aproveitar os melhores preços e oportunidades“.

Talvez o cliente tipo do BES 360º não corresponda ao perfil médio de iliterado financeiro que predomina no país, talvez a taxa de juro oferecida não seja particularmente elevada, talvez o banco até tenha tido a melhor das boas intenções, talvez até seja prática corrente entre os concorrentes bancários, mas não deixa de haver, nesta conjuntura, perante o discurso dominante, inclusive de autoridades financeiras e bancárias, margem para choque e espanto perante a constatação da perenidade e forma massificada deste tipo de práticas comerciais. É pelo menos o nosso caso. Fica aqui o relato para que o leitor e cliente bancário do BES ou de qualquer outro banco possam fazer com ele o que lhe aprouver.

Bons negócios!

Reproduzimos em anexo a missiva, consultada nesta ligação ( http://www.bes.pt/images/emails/cipa4/360/index.html ) a 3 de dezembro de 2012:

“Caro Cliente,

Estamos novamente naquela altura do ano em que as despesas parecem multiplicar-se: depois das compras para o início do ano lectivo, chega agora a nova estação e com ela a preparação para as festas de Natal e de Fim de Ano. Para fazer face a tantos gastos potenciais, há que saber planear com tempo e até adiantar algumas compras para aproveitar os melhores preços e oportunidades.

Por isso, até 31 de Dezembro, o BES coloca à sua disposição um crédito pré-aprovado para fazer face a imprevistos ou despesas extraordinárias.

Com esta solução de crédito tem:

  • Prestações mensais competitivas
  • Flexibilidade na escolha dos montantes e prazos de pagamento

Para beneficiar desta oportunidade, contacte o seu gestor
ou a Linha BES 360° – 707 300 360.

No caso de não estar interessado, nada terá que fazer, pois este crédito só será activado mediante o seu pedido.

Com os melhores cumprimentos,
Banco Espírito Santo

TAN de 9,958%. Taxa indexada à Euribor 3 meses (0,208% aplicável em Novembro 2012) + spread de 9,750%. TAEG de 11,3% para um pedido de €5.000,00 e montante de financiamento de €5.380,67 a 60 meses. Prestações mensais de €115,27, totalizando €6.916,19. Inclui seguro BES Protecção Mais.”

Tagged under:

10 Comentários

  • Renato BarrosResponder

    Esta prática pode parecer agora uma prática pouco ética, mas no passado quase todas as instituições bancárias o faziam.

    • MapariResponder

      E o que choca mais é que continuam a fazer, mesmo depois de intervencionadas pelo Estado, mesmo quando a contração do consumo é um “designio” nacional, mesmo quando não há crédito para emprestar às empresas.

  • JoséResponder

    Nada vejo de mal nesta prática. O cliente é que tem de saber se está ou não capacitado para solver a dívida em devido tempo. Aliás, em honra da verdade o cliente deveria ter comunicado ao banco a sua situação financeira, logo que ficou desempregado, caso contrário, como quer que o saiba dessa situação?
    Mesmo assim, ao dirigir-se ao banco para assinar a documentação desse empréstimo, essa situação iria ser esclarecida, e duvido que o banco lhe tivesse emprestado, apesar de lhe ter mandado a tal carta.

    • MapariResponder

      Como se diz no artigo a entidade SABIA que o cliente estava desempregado e também como se diz também, o crédito não foi pedido pelo cliente em momento algum. Naturalmente, não estando interessado o cliente não deu troco ao banco, contudo ficou chocado com a ligeireza com que o banco enviou o convite (e o respetivo embrulho que se lê na carta) à contração de mais crédito.
      Os intermediários financeiros têm a obrigação de adequar a oferta de produtos financeiros ao perfil dos seus clientes, é uma condição essencial das mais elementares boas práticas do mercado. Enviar a um desempregado, provavelmente a atravessar um momento de dificuldades financeiras e certamente menos capaz de enfrentar novas despesas, uma oferta não solicitada na qual se apela às emoções natalícias, à necessidade de adquirir, consumir invocando precisamente a época e as dificuldades da época levanos a uma oferta que é no mínimo uma prática eticamente discutível em qualquer contexto. No atual onde a banca invoca não ter crédito para emprestar ao setor produtivo e no qual teve de recorrer a crédito público, garantido pelo Estado, para cumprir com as obrigações de capital, ver “soluções não solicitadas” que estimulam o crédito ao consumo creio que já roça a gestão danosa e a má fé. Mas naturalmente, cada um terá a sua opinião.

  • LuísResponder

    Credito Pre Aprovado e diferente de Credito Aprovado……nestes casos e se o cliente decidir avançar o Banco confirma todos os dados e situação financeira e pode mesmo recusar! E incrível usarem este exemplo para denegrir a imagem de apenas o melhor Banco Português que não necessitou da Troika para cumprir racios e que foi a primeira empresa portuguesa a conseguir financiamento estrangeiro…nesta altura do campeonato! E fácil criticar mas por incrível que pareça há desempregados com bastante dinheiro e que podiam perfeitamente ter capacidade para fazer um financiamento desta natureza. Pois quem tem também pede…!e acreditem que nesta altura os bancos só dão mesmo a quem tem, pois credito em atraso ja tem suficiente.

    • MapariResponder

      Luís, não estamos a denegrir a imagem de ninguém. Estamos a relatar uma campanha comercial do BES. Tal como o Luís acha que está tudo bem, o mesmo poderão pensar muitos outros leitores. Os factos estão a aí, assim como a sua opinião. Sim, pode haver desempregados com capacidade financeira claro, mas para quê ser pro-ativo na venda de crédito ao consumo, na conjuntura atual? Se o cliente precisar de crédito pode sempre ir ao banco tentar negociar um contrato, como explicar que sem mantenha nesta conjuntura uma prática comercial sobejamente criticada e apontada como um dos instrumentos dos erros do passado, inclusive pelos próprios banqueiros?
      Amanhã deixaremos aqui outro relato muito recente, envolvendo um outro banco com uma política muito agressiva de tentativa de captação de crédito ao consumo.

      Infelizmente, os casos proliferam. E dizemos infelizmente porque também temos opinião e calhamos a considerar no mínimo inoportuno o recurso a práticas comerciais agressivas de captação de crédito ao consumo junto de desempregados (para citar os casos mais bizarros).

  • Pingback:Banca insiste em práticas agressivas de venda de crédito ao consumo: mais um exemplo | Economia e Finanças

  • DanielResponder

    Não queria deixar de contribuir com a minha opinião para este artigo… Não me choca e acho que o cliente e que tem que decidir se tem ou não capacidades para cumprir com esse encargo, e o Banco refere e muito bem que o cliente para aderir tem que contactar o gestor. Ora o gestor vai certificar-se se o cliente reúne as mínimas condições para a Aprovação do credito após interesse do cliente. No meu caso eu estou desempregado a 2 anos, e felizmente nunca precisei de recorrer ao credito nem para casa, mas caso o meu banco me fizesse uma proposta dessas e estando eu desempregado não implicava que eu entrasse em incumprimento, nao sou rico, mas poupei e os juros de um ano dariam perfeitamente para pagar o total. Por isso acho que tudo depende do cliente desempregado.

  • ANA GUEDESResponder

    qual o vosso problema ? eu estou desempregada, tambem já recebi duas ofertas idênticas e declineias. PONTO FINAL.
    não têm outros assuntos mais interessantes ?

    • MapariResponder

      A Ana viu o último estudo do Banco de Portugal sobre o grau de iliteracia financeira do cliente bancário português?

Deixe um comentário

O seu email não vai ser publicado.