Os certificados de aforro acabaram (morreram por falta de interesse) – actualizado

O que vai mudar nos novos Certificados de Aforro? Depois de várias ameaças o Governo lançou uma nova série de Certificados de Aforro, a série C, que implica substanciais alterações face à série anterior. De caminho, encerrou a série anterior a novas subscrições e reduziu fortemente a taxa de juro aplicável às séries A e B convidando desta forma os aforradores a procurarem melhor oferta. Infelizmente, esta última parte não transparece de forma clara do comunicado do governo sobre o tema (versão integral aqui), mas transparece das portarias ontem publicadas em diário da república sobre esta questão: a portaria nº73-A/2008 e nº 73-B/2008.

Porquê mudou o regime? As explicações permanecem difusas e difícies de entender sem mais informação. No comunicado que apresenta o novo regime a justificação básica é esta:

“(…) reduz a injustiça social que lhes estava associado, dados os elevados custos, suportados pelos contribuintes, que este produto tinha quando comparado com produtos alternativos.”

Tal como aqui expus há largos meses em “Certificados de aforro: um instrumento sob fogo cerrado“, quase parece, a manter-se o rumo anunciado, que o dinheiro dos aforradores só interessa ao Estado havendo um outro intermediário financeiro pelo meio. Tudo isto só faz sentido se este instrumento de captação de poupança para pagamento de dívida pública for de facto a forma mais cara de o Estado se financiar. Para que não restassem dúvidas era bom que o governo demonstrasse isto.

Mas respondamos à pergunta, o que é que muda?

Quem já tem certificados poderá continuar a esperar o mesmo tipo de prémios de permanência e poderá mantê-los durante o tempo que quiser. A “pequena diferença” é que a taxa de juro passará a ser 60% da TBA em vez dos actuais 80%. Na prática, a taxa que em Janeiro foi de 3,72% seria de 2,79%, ou seja, espera-se que já em Fevereiro estes títulos vejam a sua taxa de juro cair mais de um ponto percentual.

No máximo, para quem já esteja a receber o prémio total (certificados com mais de 4 anos e meio de antiguidade) a taxa bruta anual será de 4,79%, ou seja, 3,832% líquidos. Hoje há alguns depósitos a prazo a remunerar acima destes valores.

Para os novos certificados, a taxa de referência passará a ser 85% da média da Euribor a 3 meses (dos 10 dias anteriores ao antepenúltimo dia útil de cada mês) valor ao qual se subtrai ainda um spread adicional fixo de 0,25 pontos. Ou seja, para uma Euribor a 3 meses igual à estabelecida para hoje pelo mercado, 4,302%, a taxa (bruta) dos certificados ficaria em 3,41%, o que dá em termos líquidos 2,73% (já substraídos os 20% de retenção na fonte que revertem para o Estado).

Adicionalmente, os certificados passam a ter um prazo máximo de 10 anos, num limite de 100 000€, sendo que os prémios de permanência só começam a vencer-se ao fim do 1º ano e têm escalonamentos e valores diferenciados:
0,25% no 2.º ano;
0,50% no 3.º ano;
0,75% do 4.º ao 7.º ano;
1% no 8.º ano;
1,5% no 9.º ano;
2,5, no 10.º ano.

Por outras, e voltando ao nosso exemplo, a taxa anual bruta será de:

3,41% no 1º ano;
3,66% no 2º;
3,91% no 3º ano;
4,16% no 4º, 5º, 6º e 7º anos;
4,41% no 8º ano;
4,91% no 9º ano;
5,91% no 10º e último ano.

Meus amigos, esqueçam os certificados de aforro! Só no último ano atingem uma taxa interessante que obviamente não paga o “preço” de ter o dinheiro parado e mal pago durante os 9 anos anterior. Sim, há depósitos a prazo a render 5% brutos e até ligeiramente mais, disponíveis no mercado.

Parabéns senhor Ministro, conseguiu acabar com os Certificados de Aforro, disfarçando a coisa de modernização. Os bancos seguramente ficar-lhe-ão imensamente gratos pelo novo afluxo de capitais que a eles chegarão quando se perceber como os CA perderam interesse.

Vamos a ver se nos jornais provam algum erro nesta minha interpretação a quente e/ou se encontro confirmações. Para já, as primeiras notícias limitam-se a transcrever o comunicado do governo.

25 comentários sobre “Os certificados de aforro acabaram (morreram por falta de interesse) – actualizado

  1. Caro Jam,

    Até compreendo o seu ponto de vista, mas pelo motivos invocados pelo Rui Cerdeira, e outros, bem mais ponderosos, continuo a defender a opção que defendi. Além disso, a notificação por carta (incluindo as simulações), além de racional não traz custos exorbitantes…

    Por outro lado, os extractos são enviados por Conta Aforro e não por certificado de aforro-, que resumem os movimentos e saldos de todos os produtos ou subscrições.

    Também como disse, e reitero, a confiança, rigor e transparência são valores morais, sociais e até económicos, que não devem ser susbtimados, ainda para mais, nas sociedades modernas, ditas do conhecimento, a não ser que queiramos regredir para uma informação deficiente ou desinformação. Não me parece uma boa opção!

    Não defendo o Estado amoral, nem que se esconda e escude em portarias, com informações que a maioria dos aforradores, creio não perceber e, por isso, não fosse a sociedade civil a mover-se, um bom bom envenenado até parecia ser uma mousse soberba. 🙂

  2. Estimados observadores
    Parabéns pela denúncia da malandrice relativa aos CA. Certamente vai ser feito um estudo por entidade credenciada. Se concluir que estão fintando os aforristas, fazem a 3ª ponte no rio Mondego.
    É o País que temos.

  3. Exmos Senhores. Quero fazer um pedido e não um comentário.
    Tenho 82 anos de idade e tenho preferido colocar as poucas economias nos certificados de aforro mesmo sabendo que outras instituições valorizam mais o aforro.
    Queria saber o seguinte: Como já tenho alguma idade posso necessitar de fazer algum levantamento para acudir a alguma doença inesperada;Eu pregunto; 1º Posso fazer algum levantameno ?
    2º Serei penalizado ?. Agradeço a Informação de V.Exas. Grato pela atenção;
    Bernardino do Livramento

  4. durante anos comprei certificados de aforro, para mim e meus filhos desde que nasceram. A meio de percurso estes cavalheiros que nos governam, mudaram as regras. Ha 1ª estava de boa fé, agora só caí quem é burro!

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