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Já ouviu falar em estagflação?

É uma mistura de estagnação económica com preços altos/inflação. A economia abranda ou encolhe mesmo mas os preços teimam em acelerar devido por exemplo à escassez localizada de um produto essencial que tem implicações na generalidade dos bens de consumo como seja o petróleo. A subida do petróleo é especulativa? Os produtos agrícolas sobem por causa dos aproveitamentos energéticos de alguns deles – para produzir biodiesel, entre outros? Será importante discutir porque sobrem os preços mas permanece o fantasma da estagflação.

E porque é que a a estagflação é má? Com a economia em pré-recessão ou abrandamento haverá mais pessoas com mais dificuldades financeiras, mais desemprego por exemplo, se a isto somarmos a delapidação continuada do rendimento promovida pela subida generalizada de preços, o poder de compra entra em quebra acelerada e até se encontrar um novo equilíbrio, num ponto onde a queda do consumo possa eventualmente interromper a subida dos preços, os reguladores económicos têm pouco a fazer. Ou pelo menos têm menos garantias de que o que venham a fazer possa ter o efeito desejado na economia.

De que estou a falar? Imaginem que a economia está abrandar mas os preços estão a acelerar – é este o cenário actual. O que deve fazer o Banco Central Europeu? Baixa os juros para estimular a economia correndo o risco de estar a estimular a inflação que já vai galopando? Menos juros, mais facilidade de crédito, mais consumo, mais pressão sobre os preços. Ou em alternativa resiste a baixar os juros, ou decide mesmo aumentá-los para conter a inflação através da moderação do consumo que juros altos costumam acarretar, mas correndo o risco de dar o empurrão que faltava para a economia (a produção) entrar em colapso?

O cenário não é fácil de gerir para quem pensa que pode e deve tentar fazer alguma coisa. Ao ponto de a própria lógica de causa-efeito deixarem de ser directas. Neste cenário não há garantias de que uma descida da taxa de juro de referência do Banco central se reflicta na taxa de juro praticada pelos bancos quando compram e vendem em dinheiro entre si. É que devido à bagunça financeira provocada pelo crédito barato os bancos ainda não sabem se os seus pares a quem podem até emprestar dinheiro terão capacidade de cumprir com o contrato de crédito que estará em cima da mesa. Recorde-se que as garantias que os próprios banco têm para os empréstimos que concederam estão a perder valor – veja-se o mercado imobiliário, particularmente nos Estados Unidos, mas também em Espanha.

Talvez no final o que nos sobre (particularmente aos Economistas) seja precisamente perceber porque é que os preços sobem e a economia abranda para tentar antecipar com melhor segurança as consequências mais ou menos modestas da política monetária e mesmo orçamental que se esteja a perspectivar. Ou isso ou relatar daqui uns meses com a maior exactidão possível o que se passou em termos económicos. O mais competente economista do mundo tende a ser o economista historiador. Digo eu, que sou quase um leigo.

5 Comentários

  • CarlosResponder

    Caro Rui Cerdeira,

    Nos anos 70, o palavrão estagflação estava na ordem do dia em, especial, nalgumas das economias ocidentais mais relevantes, portanto, à cerca de três/quatro décadas. Entretanto, já passou muita água debaixo das pontes e muitos esqueçeram os dramas desse palavrão ao passo que outros nascidos no intermezzo, nem sequer ouviram falar do mesmo. Mas, hoje, o risco de retorno da paralesia do crescimento económico a par da subida colestrol do crescimento dos preços e do desemprego, infelizmente, é bem real. A distribuição assimétrica da riqueza, ainda veio facilitar mais as coisas,… pois é, pois é!…

    Gerir uma tal situação não é pêra doce, contudo, estrangular mais o investimento, mercê de um controle a todo o custo dos preços, não me parece ser a melhor opção. Os monetaristas tanto esqueceram as almofadas keynesianas, que agora, muito provavelmente vão ter mesmo de utilizar algumas (A Reserva Federal Norte Americana, já deu sinais disso), o problema é que a margem de manobra não parece ser tão grande como noutros tempos!

  • DLResponder

    Há uma hipótese política, que é a criação de linhas de crédito especiais, com juros baixos, para negócios que façam diminuir a necessidade do tal produto essencial (chamemos-lhe petróleo): tecnologias limpas, transportes verdes, etc. Coisa que já devia ter sido feita aliás durante os anos de crescimento.

  • Pingback:E a inflação não para - Economia & Finanças - Todo o economista é um leigo, todo o leigo é economia

  • fabioResponder

    @ DL

    o problema é que isso teria um impacto bestialmente negativo na REN e na Galp…
    Os accionista seriam os primeiros a não achar muita graça… quer dizer talvez naqueles que adquirissem warrants lhes agradasse um pouco a ideia.
    Hoje em dia aposta na queda de determinados capitais está na baila, então com a crise do sub-prime é como os cogumelos.
    Não esqueçamos que para todos os efeitos que o petróleo é um dos activos mais rentáveis e o mais importante (penso eu) no sector das commodities.

  • MAlvesResponder

    Encontro-me a fazer um trabalho sobre a estagflação a partir de um artigo da autoria de Camilo Lourenço. A minha principal dúvida é se podemos considerar este fenómeno como um ciclo vicioso cujo motor propulsor se centra também nas expectativas do consumidor e do investidor ou seja na sua segurança no acto de transacção. Na realidade podemos considerar que existe um grupo especifico de factores que influenciam todo este processo ou trat-se apenas do fluxo natural do ciclo economico?

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