Banco de Portugal descobre clientes bancários

Banco de Portugal descobre clientes bancários? O título é provocador mas julgo que justo, se pecar por injusto dever-se-á mais ao que se assume acontecerá no futuro. Mas já lá vamos.

O dia começa repleto de boas notícias e de boas promessas.

No campo das boas notícias temos as surpresas inesperadas da recuperação da confiança dos empresários Alemães e Franceses face à evolução económica no futuro próximo. Maravilhas da queda sustentada do preço do petróleo abaixo dos $60 há algumas semanas? Esperemos que não seja “só”.

(várias notícias aqui referenciadas deixaram de ter ligações ativas).

17 thoughts on “Banco de Portugal descobre clientes bancários

  1. Umas notas sobre os arredondamentos:
    Relativamente às “acusações” que aparecem em todo o lado de que os bancos enganam os seus clientes com esta prática, vamos ser “sérios” (como dizia o JVA): só não vê ou não viu quem não quer ou quem não quis. Mais: as simulações de qualquer banco apresentam os arredondamentos reflectidos nas rendas. Mais ainda: todos os bancos têm produtos sem arrendondamento, basta pedi-los.
    É sintomático do “ódio” à banca esta questão, quando temos um mercado de crédito com spreads entre os mais baixos do mundo!

    Para terminar: a afirmação do BdP quanto ao desconhecimento desta prática é, no minimo, ridicula. Quanto à sua intervenção neste caso, é um péssimo sinal. O BdP não tem nada que intervir na politica comercial da banca, desde que a mesma seja tranparente. E neste caso é.

  2. Viva NG.
    Julgo que o que está em causa é facilitar a comparabilidade entre as diferentes ofertas dos Bancos. O que em bom rigor não agrada à Banca – se agradasse não se teriam inventando tantos critérios de arredondamento de taxas nos últimos anos (1/16, 1/4, 1/8, à milésima, etc). Já agora esse record da nossa banca compara os spread em sentido estrito ou tem em conta os arredondamentos às taxas de referência que poderiamos chamar de “spreads complementares”? É um provocação… Mas ter a resposta seria interessante…

    A minha opinião vai no sentido de que o prémio de risco e a remuneração do crédito prestado pelo Banco sejam reflectidas no spread, ponto final. Já bastam o cross sellings de seguros, cartões e outros produtos adicionais para complicar a vida ao cliente que procura conseguir comparar as propostas da banca para saber qual a que lhe é mais favorável.
    A taxa de referência, como o próprio nome induz é a taxa de referência definida pelo mercado e não faz sentido nenhum teres valores distintos para a mesma taxa com as mesmas maturidades em virtude de arredondamentos distintos que lhe anexas. Haverá bancos incapazes de arredondar à milésima e os outros são correncias por terem máquinas de calcular mais potentes? Mais uma provocação… Não resisti, mas defender “política comercial” no arredondamento parece-me bizarro.
    Não há nenhuma justificação técnica ou competitiva para que existam critérios de arredondamento distintos que não seja os de introduzir “ruído” na negociação, complexificando-a e com isso dificultando a decisão dos clientes. Se esse não fosse o objectivo nem se falaria de euribores nem de spreads nas negociações ia-se directamente para as TAEL e pronto. Isso é que seria transparência real e incontestável. Mas não é isso que se vê do lado da Banca, admitamos que compreensivelmente (ainda que pouco saudável para o mercado).

    Convenhamos que no universo de clientes da banca nem todos dominam a gíria técnica quanto mais esses pequenos truques que tantas e tantas vezes passam despercebidos como seja a questão dos arredondamentos. Quando negociei o meu crédito à habitação, há alguns anos, em momento algum o Banco tomou a iniciativa de me informar que haveria sequer um arredondamento à taxa de referência, antes pelo contrário! Até ao momento em que li o contrato sempre assumi que ela era definida no mercado e não “afinada” pelo Banco. Se achas que este nível de transparência basta, eu não acho.

    O Banco Central não tem que definir na política comercial da Banca? De facto não tem, mas deve definir as balizas que essa política comercial deve respeitar e garantir que estas se apliquem igualmente a todos e, a bem do mercado e de todos os seus agentes, parece-me correcto que o preço do dinheiro definido no mercado interbancário funcione como parcela que resulta exógena à negociação entre o banco e o seu cliente.

    Se o Banco Central está finalmente a tentar reconhecer que tem obrigações na regulação do mercado então deve mesmo pôr um dedinho na balança dos agentes mais vulneráveis, com menos poder negocial e com menor acesso (e entendimento, o que vai dar ao mesmo) à informação relevante, por forma a garantir que haja negociação efectiva e capacidade de escolha instruída por parte dos clientes bancários.

    Para terminar: snceramente não estou a ver qual é o drama desta medida que se adivinha por parte do Banco? A solução é simples: os Bancos que concentrem a sua política comercial no spread (aumentem-nos na medida do que perdem por deixarem de poder arredondar se acham que se justifica), nas taxas fixas, “joguem” com as Euribor para as diferentes maturidades de acordo com as expectativas que têm para o mercado, alarguem ou encolham os prazos, apliquem-se no cross selling. As variantes de negociação são mais que muitas e suficientes ainda (com o grau de transparência exigido) para baralhar muitos e bons clientes.
    Eu como cliente, entretanto, não só agradeço como tendo a encarar a banca mais facilmente como uma “pessoa de bem” se não insistir em arredondar algo que não precisa de arredondamento.

    Já agora acerca da transparência na banca recomendo a leitura de um texto mais antigo aqui deste blogue: Sem Spread em Número com Spread por Extenso.

    Comenta sempre que nós por cá gostamos de replica (vou estar ausnete por uns dias).

  3. Caro Rui,

    que grande “testamento”! Vou ter que dividir a minha resposta por vários comentários e por vários dias (ainda assim, se o tempo o permitir). Mas parece-me ser um assunto que merece tempo e discussão.
    Comecemos pelo “Julgo que o que está em causa é facilitar a comparabilidade entre as diferentes ofertas dos Bancos.”
    Temos que separar os canais que apresentam essa oferta: nos media, como com qualquer outro produto de qualquer outro sector, a comparabilidade é muito dificil. O tempo ou o espaço (consoante o meio) são escassos, pelo que a mensagem tem que ser breve, clara e …apelativa. Dai os “spreads zero” e campanhas similares. Mas nada disto é exclusivo da banca, como, por vezes, se parece querer fazer crer;
    já nos balcões, há informação obrigatória que é prestada a todos os clientes (aqui sim o BdP deve intervir – estamos a falar de transparência), e tudo é apresentado nas simulações, inclusive, cenários com aumentos dos indexantes com 1% e 2%.
    Em resumo:
    as campanhas publicitárias dos bancos não são esclarecedoras e, por isso, são difilmente comparáveis; a informação e documentação entregue aquando de uma simulação, é (se as pessoas têm capacidade para a entender, é outro tema).

    (continua)

  4. “Já agora esse record da nossa banca compara os spread em sentido estrito ou tem em conta os arredondamentos às taxas de referência que poderiamos chamar de “spreads complementares

  5. “Haverá bancos incapazes de arredondar à milésima e os outros são correncias por terem máquinas de calcular mais potentes? Mais uma provocação… Não resisti, mas defender “política comercial

  6. Viva NG,
    Aumente-se o spread! Não me expliquei bem, não tenho nada contra. Parece-me bem que seja a consequência natural daquilo que defendo: o spread deve incorporar a totalidade do prémio de risco e a remuneração do crédito prestado pelo Banco.

    A taxa de referência é exógena, ponto. O spread é endógeno de cada banco e reflectirá além do acima descrito a própria capacidade de gestão e de organização do banco. Naturalmente o banco mais eficiente conseguirá provavelmente a melhor proposta do mercado. Assim é que deve ser, acabe-se a competição entre os bancos no ramo da venda da ilusão mais bem montada onde todos tentam superar o outro na arte de melhor dissimular “quanto custa o dinheiro”.

    O banco propõe cross-selling para alterar (baixar) o spread? Porreiro, nada contra desde que a transparência se mantenha. Aí qualquer cliente saberá automaticamente que está já a juntar outros negócios ao que inicialmente o levou ao banco ( o crédito à habitação) e, naturalmente, terá de fazer mais contas ou, recorrer a outras auxiliares copósitos como a TAEG que dão uma excelente ajuda…

    Caro NG quanto à comparação entre a Banca e qualquer outro negócio, não a desprezo à partida mas deixo, também à partida uma ressalva importante. Contratar um crédito à habitação (e de forma mais genérica a relação com a banca) é a decisão comercial/financeira/económica mais relevante da vida de quase todos os clientes que o contratam tendo como tal o maior impacto nas respectivas vidas das pessoas. Só por este simples facto a comparação com os restantes mercados deve ser sempre considerada de forma enviesada. O poder negocial do cliente e incomensuravelmente mais pequeno do que o do Banco e é nessas situações de desequilibrio que defendo justificar-se a intervenção atenta do regulador.

    Mais prosaicamente, se nos supermercados o regulador/Estado obrigou (e muito bem) a que junto com a fixação do preço unitário dos produtos se apresentasse o preço por unidade padrão (kg, Litro, etc), no relacionamento com um banco, onde de muitas formas o cliente está numa posição muito mais enfraquecida do que quando decide sobre que marca de arroz leva para casa, acho que se deve exigir ainda mais transparência e ainda mais vigilância do regulador. O BdP emite muitos avisos e quejandos? Excessivos? Talvez tenhas razão, mas os que vou conhecendo são quase sempre relativos à solvabilidade e gestão do sistema de pagamentos, ao combate aos crimes financeiros, a formalísmos técnico juridicos, chegando muito poucos a ter impactos visíveis (para ocliente) na melhoria do relacionamento entre o Banco e os seus clientes. Se calhar há avisos a mais e avisos a menos ao mesmo tempo…

    Atendendo à forma como a nossa economia e história económica (o peso da compra face ao arrendamento, etc) se organizou e permance organizada, a Banca tem um poder enorme sobre a maioria da população prestando-lhe um serviço determinante. A essa posição de poder deve exigir-se a maior das responsabilidades.

    Não me choca nada que algumas das práticas permitidas para promover a venda de um sabonete sejam vedadas ou limitadas na forma como se vende o dinheiro. Admito que este seja o principal ponto que nos separa.

    Para concluir: a Carta Aberta ao BES que o Pedro Brano Gomes dá conta aqui é só um dos inúmeros exemplos onde pontificam a sensação de impotência e de revolta para com a banca que assaltam muitos dos clientes bancários. Tem de haver outra forma, mais honesta/transparente, mais olhos-nos-olhos, de negociar, mais benévola para a própria imagem da banca, outra forma de garantir que esta seja um bom negócio para os investidores e o “óleo” necessário ao florescimento do saudável capitalismo regulado em que julgo a maioria querer viver.
    A má imagem que a banca tem cultivado e os ataques que tem sucessivamente sofrido são demasiadas vezes justificados pela experiência de cada um. Um cliente que se sente roubado, é um cliente mal servido.

    Quando a banca, à semelhança do que acontece noutros mercados, perceber que servir bem e ter clientes satisfeitos faz parte integrante dos objectivos que lhe garantem o sucesso as coisas melhoraram. Até lá resta-nos o regulador e algum banqueiro mais afoite e com mais visão que nos ofereça uma alternativa ao que vai dominando pela banca nacional e internacional.

    Um abraço,
    Rui

    P.S.: E eu hoje até estou bem disposto com a Banca pois reduzi o spread do meu crédito para metade sem necessidade de grande alarido negocial 😉

  7. Olá Rui,

    acho que, no essencial, estamos de acordo:
    – as negociações são um território privado de clientes e bancos;
    – o regulador (BdP) deve pugnar pela transparência da oferta da banca;
    – a comunicações dos bancos (num sentido lato) poderia ser mais transparente (como em qualquer outro sector).

    Só dois comentários finais:
    – a taxa de referência não é exógena. Como sabes, são os bancos que em larga medida a “formam”, com as suas transacções. Obviamente que a taxa de referência do BCE tem muito peso nesta equação, mas o mercado tende a (tentar) antecipá-la, pelo que raramente coincide;
    – o caso do BES não me choca. O que não quer dizer que concorde com a política comercial do BES. O que digo é que há uma maneira simples de cada descontente mostrar o que lhe vai na alma: mude de banco. O que não falta em Portugal é concorrência na banca. E ainda existem bancos que não cobram esse tipo de comissões, ou, cobrando algumas, o fazem por valores bastante mais baixos.

    Abraço

    NG

  8. Sim, no essencial estamos de acordo.
    Quanto ao exógeno, é exógena ao contrato directo entre aquele banco e aquele cliente. A influência do contrato que estão a realizar e o valor da taxa é menos que infinitésimal. Era isso que queria dizer.
    Finalmente, quanto ao “podes sempre mudar de banco” é verdade mas nem sempre adianta pois em algumas matérias há concertação bancária. Explica-me lá qual é a razão substativa para que tenhas de pagar uma indemnização (virtualmente em todos os bancos) caso procedas, por exemplo, à amortização antecipada do empréstimo que contraíste?

  9. “Nature finds a way”. Explico: a maior parte dos bancos nos clientes que queiram transferir os créditos de outros bancos suportam a penalização (já há bancos que o fazem até 5%).

    Penso que não ficou bem claro que eu não estou a defender, nem a atacar, as práticas dos bancos. Estou simplesmente a defender que o estado não deve meter-se em negociações puramente comerciais. Até porque, por norma, os efeitos dessas intervenções acabam por ser nefastos para os consumidores. E além disso, também por norma, “nature finds a way” (ou, se quiseres, “market finds a way”).

    Abraço

    NG

  10. Uma perguntinha:
    Um Banco que peça dinheiro emprestado ao BCE está sujeito a ter que pagar uma indemnização proporcinal ao crédito caso decida amortizar a dívida antecipadamente? Julgo que não. E se não porque é que há-de fazê-lo junto do cliente a quem vai emprestar esse dinheiro? Deve gerir o seu negócio e formar o seu preço sem ter de recorrer a esse “instrumento”.

    “nature finds a way” excepto se eu quiser efectivamente sair do sistema. Se eu não quiser transferir o crédito para outro banco mas simplesmente deixar de estar a dever estou lixado. Bem vistas as coisas tudo está bem se continuares a pagar ao “sindicato” aí não te penalizam.

  11. Ng, permita-me que deixe uma nota de parabéns pelos seus lúcidos comentários acerca deste assunto dos arredondamentos, que tem servido escandalosamente de propaganda política, mais do que justiça social (como ficou claro, os bancos deixam de poder meter a mão num dos bolsos, mas encontrarão maneira de a meter no bolso de trás). Deu-me bastante matéria para um trabalho universitário que fui incumbido de escrever.

  12. NG, como já foi dito, nem todos tem formação técnica nesta área como tu pareces ter (de certeza que tens). Como o Estado vive de quem paga os impostos (não tem capacidade técnica/financeira) para “fugir”, os bancos vivem (não só, mas tambem) dos “mal informados” que acreditam no Gestor de Cliente (esta função é mais “Colector de Dinheiro do Cliente”).

  13. Boas! Eu gostaria de saber como e em que termos é que devo escrever uma carta a meu banco de modo a ficar por cima e fazer com que o meu spread de 1.25 fique abaixo dos .89! ajuda

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