Gestão Fiscal: devo ou não pedir factura-recibo? – 1ª parte de duas

Para que não fiquem dúvidas em que pé estou em termos de incentivo ao cumprimento das obrigações fiscais permitam-me expor um conjunto de cenários onde o que parece interessante para o consumidor (não exigir factura-recibo) se pode revelar duplamente lesivo para este. Devido à sua extensão apresento hoje a primeira parte do texto e a conclusão amanhã.

Recibo IDevo ou não pedir recibo ao prestador de serviços?

Em termos legais, esta é uma não-questão. Um prestador de serviços não deve ter opção, deve passar o respectivo recibo relativo ao serviço realizado, cumprir com as suas obrigações fiscais e ponto final. Logo, o cliente não deveria ter estes dilemas.

Contudo… Contudo, a realidade é diferente e é ainda frequente surgir esta alternativa.

Centremos-nos no caso da prestação de serviços médicos em regime privado.

Feita a consulta perguntam-nos: “Quer com ou sem recibo?

Uma das opções é partir para denúncia. Peça o livro de reclamações, por exemplo, e/ou reporte o caso directamente às finanças, de preferência indicando testemunhas. Mas imaginemos que gosta dos serviços daquele médico e não se quer incompatibilizar com ele – algo muito provável perante uma denúncia. O que resta fazer?

Vamos por partes. Tem ou não tem seguro de saúde?

Se tem, provavelmente não haverá muito em que pensar: é pedir o recibo e apresentá-lo ao seguro. O “desconto” que o médico lhe fará na opção “sem recibo” não deverá cobrir a comparticipação do seguro.

Imaginemos agora que não tem seguro de saúde.

A pergunta repete-se “Quer com ou sem recibo?

Se for um dos portugueses que não desconta IRS ou desconta um valor muito reduzido a resposta não legalista, complica-se. Mas não é necessariamente em favor da opção “sem recibo”.

Por um lado, indirectamente, ao não pedir recibo sabe que está a permitir que o médico não declare devidamente os seus impostos, aumentando o risco de ter o Estado à procura do dinheiro noutro lugar, por exemplo, no seu bolso por via de aumentos no IVA ou na redução das isenções de pagamento de IRS /aumento das taxas.

Por outro lado, se descontar alguma coisa de IRS, poderá vir a recuperá-lo por via da apresentação de despesas de saúde. Despesas que legalmente só são reconhecidas se pedir recibo! Resta saber se o desconto feito pelo médico na opção “sem recibo” compensa o que iria recuperar em IRS.

Isso leva-nos a mais um cenário. Vamos supor que o cliente pertence à população activa empregada e que desconta IRS regularmente todos os meses.

(Continua amanhã)

Publicado em 28 March , 2007 | Arquivado em Dinheiros, Legislação, Política Fiscal, Sociedade |

Comentários

3 comentários a “Gestão Fiscal: devo ou não pedir factura-recibo? – 1ª parte de duas”

  1. as em 28 March, 2007 6:23 pm

  2. Gestão Fiscal: devo ou não pedir factura-recibo? – Última parte - Economia & Finanças - Todo o economista é um leigo e todo o leigo é economia em 29 March, 2007 2:56 pm

    [...] e todo o leigo é economia em Depósitos a prazo tradicionais: qual a melhor taxa de juro?as em Gestão Fiscal: devo ou não pedir factura-recibo? – 1ª parte de duasRui Cerdeira Branco em Factura? Qual factura?» Começam as novidades editoriais mais visíveis [...]

  3. » Peça factura em 29 March, 2007 5:07 pm

    [...] factura Devo pedir ou não factura? Num artigo dividido em duas partes (I e II) abordei alguns cenários na óptica do consumidor/contribuinte relativos a esta [...]

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